Preços das commodites agrícolas vieram para ficar

Em 1970 os Beatles emplacavam Let It Be nas paradas de sucesso nos EUA.  Leonid Brejnev era presidente da então União Soviética. Nixon era o presidente dos EUA e, no Brasil, Médici governava o país. Os EUA estava envolvido com o Vietnã e um crescente problema interno gerado pela guerra. Para o Brasil foi um ano de alegria com a conquista da Copa do Mundo.
 

Daqueles idos de 1970 podemos tirar dois ‘retratos’:
 

PRIMEIRA FOTO: A EVOLUÇÃO DAS EXPORTAÇÕES BRASILEIRAS DE 1960/2021
Imagem: Divulgação
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SEGUNDA FOTO: AS EVOLUÇÃO DAS EXPORTAÇÕES CHINESAS DE 1960/2021:
 

Em 1970 a China exportou USD 2,31 bilhões e o Brasil USD 2,98 bihões.

50 anos depois, estes dois números que eram quase o mesmo (na verdade o Brasil em 1970 exportou mais que a China) transformaram-se (em números aproximados) em:

Exportação Brasil 2020: USD 210 bilhões

Exportação China 2020: USD 2,6 trilhões


Vamos tirar outra foto. Agora da renda per capita:
 

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Em 1970 a China tinha uma renda per capita de USD113,00.

Em 2020 a renda per capita chinesa é de USD10.262,00.

Deixemos estes números e gráficos de lado por enquanto

Izner Hanna Garcia, advogado, pós graduado FGV, ex professor de Processo Civil, autor de Revisão de Contratos no Novo Código Civil entre outros livros e produtor rural
Izner Hanna Garcia, advogado, pós graduado FGV, ex professor de Processo Civil, autor de Revisão de Contratos no Novo Código Civil entre outros livros e produtor rural

Sou nascido em 1970 e é uma grande diversão quando recebo alguns vídeos que mostram o mundo da década de 70/80. Era um mundo, ‘olhando hoje’, quase inimaginável em todos os aspectos.

Aqui o ponto: deixando de lado o saudosismo e o engraçado daquele mundo que nascemos e crescemos, o fato é que nestes 50 anos quase tudo mudou.

Mas qual foi a grande mudança, além das obviedades como o incremento da tecnologia, o surgimento dos computadores, celulares, internet e etc.?

Os gráficos acima, se soubermos perceber bem a ‘foto’, nos relevam.

 

A grande mudança estrutural (podemos dizer no eixo geopolítico econômico) foi a ascensão da Ásia Oriental, tendo a China como líder mas não só ela e sim todo o entorno incluindo Japão, Vietnã, Laos, Camboja, Indonésia e Índia.

Faça um parênteses e relembre que na década de 70 os carros japoneses eram considerados de 2ª linha. Os carrões norte americanos eram os ‘reis do pedaço’. Hoje os carros japoneses são sinônimo de qualidade.

Em termos direto e resumido o que aconteceu, desde 1970 até 2020, foi o grande crescimento da Ásia Oriental. Os EUA em 1970 eram grandes e desenvolvidos e assim continuaram. A Europa era uma região já desenvolvida e assim permaneceu. A América Latina e África eram subdesenvolvidos (ou em desenvolvimento para sermos mais benevolentes) e assim continuam. Mas a Ásia, que ‘não existia’ no mundo, passou a ser uma relevante região, em crescimento constante.

Esta foi a grande mudança.

 

O crescimento econômico da China ocorreu a uma velocidade muito maior do que o americano.

A expansão chinesa, por exemplo, gerou uma urbanização massiva e levou dezenas de milhares de camponeses a migrarem para as cidades em busca de trabalho.

De acordo com dados da ONU, o número de centros urbanos na China com populações de um milhão ou mais pessoas passou de 16 em 1970 a 106 em 2015. Em comparação, há 45 nos Estados Unidos e aproximadamente 55 na Europa.

São números avassaladores e poderia ficar aqui empilhando estatísticas em cima de estatística para explicitar o crescimento chinês e, não esqueçamos, de toda Ásia Oriental.

No entanto o crescimento da China e toda Ásia e Índia não é o ponto aqui. Se a China irá dominar o mundo, se a Índia será a 2ª economia do mundo, ultrapassando os EUA em 2040, não é interesse desta análise.

 

A questão é: o que significa esta mudança estrutural do eixo geopolítico do mundo para o Brasil e, em especial, para o agronegócio?

As potências ocidentais (EUA e Europa), à despeito do domínio financeiro e industrial, também sempre foram grandes players no agronegócio. Os EUA mais e a Europa em alguma medida, sempre foram grandes produtores agrícolas.

Por esta razão, em um mundo anterior à ascensão asiática, o agronegócio sul americano, embora sempre em expansão, não tinha a relevância que hoje tem porque, afinal, vendia-se para quem também produzia.

Vender soja aos EUA? Carne? Mas eles são grandes produtores também.

Esta conjuntura modificou-se com o ingresso da Ásia.

Os países asiáticos são compradores massivos de alimentos simplesmente porque não tem como produzir.

Mas, dizer isso é dizer pouco para se compreender a conjuntura atual do agronegócio.

Para que se entenda a dimensão da questão é preciso que se compreenda que até 1970 tinha-se toda esta população (China, Vietnã, Indonésia, Coreia do Sul, Laos, Camboja, Singapura, Bangladesh, Paquistão, Tailândia, Japão e India) de quase metade da população mundial em situação de precariedade econômica.

Que indústria que iria pensar em vender carro para chineses na década de 70?

Quem pensaria que em 2020 a China seria o maior mercado do mundo para os automóveis elétricos?

 

Voltando ao agronegócio

A Ásia cresceu e enriqueceu. Este é ponto. É necessário que se dimensione que não se trata somente de metade da população mundial mas que, além deste peso numérico, a Ásia tornou-se mais rica e, mais importante, houve uma massiva urbanização naquele lado mundo, com um migração de centenas de milhões de asiáticos para os grandes centros.

Para mensurarmos o que isso significa é preciso que deixemos nossa vivência cultural. Quando pensemos em ‘enriquecimento’ pensamos em um carro novo de um modelo melhor, em uma casa com uma cozinha de bancada, em uma renda maior, em férias em Miami.

Esta primeira fase (e trata-se somente da primeira fase) do enriquecimento da Ásia neste 50 anos, não se trata de nada disso. O ‘enriquecer’ para o grosso da Ásia significou 1 kg. a mais de carne e cereal per capita.

A população européia praticamente não cresceu no pós guerra e a população norte americana pouco mais que dobrou.

 

No entanto, nem o europeu nem o norte americano consomem hoje mais alimentos que em 1950 em termos per capita. Os EUA e a Europa já eram países ricos que tinham superado este estágio em que enriquecer significava comer melhor e mais.

Assim, para o agronegócio, o mundo ocidental (EUA e Europa) acrescentaram somente 170 milhões de novos consumidores.

A Ásia, por outro lado, não só aportou ao mercado (=à demanda) bilhões de novos consumidores (principalmente com o processo de urbanização crescente já que bilhões na Ásia antes viviam no campo em uma economia de subsistência) mas estes bilhões, todo ano, ficam mais ricos e, literalmente, comem mais e melhor.

O ciclo que diferencia o momento atual do agronegócio é que este crescimento da demanda ocorre Ásia, região que, justamente, tem uma grande limitação de aumento da produção de alimentos.

O Plano Quinquenal chinês vai de encontro à esta raciocínio já que a China quer promover o crescimento do seu mercado interno e assim continuar com seu ciclo de aumento da riqueza de sua população.

Da mesma maneira os recentes acordos firmados pela China (o RCEP em inglês e o acordo com a União Européia) e o projeto da Nova Rota da Seda, irão promover crescimento em toda região, aumentando o comércio e riqueza da região.

Cojugando estas informações que de maneira aleatória não formam uma conclusão mas analisadas em seu conjunto, apontam uma clara tendência, tem-se um fato nafastável: o agronegócio viverá, á partir de agora, um novo ciclo.

A demanda por produtos agrícolas será determinada por países que não são produtores de alimentos ou, mesmo sendo (como a China que produz 650 milhões de toneladas de grãos), têm uma grande carência de produção em relação ao seu consumo.

A alta inaudita das commodities agrícolas ao longo de 2020, em plena pandemia, denota uma pequena ‘amostra’ do que está (para bem) por vir para o agronegócio doravante.

É de se notar que a alta das commodites não foi pontual de um ou outro produto mas sim de todos.

Produção agropecuária não é criada por decreto. Não basta a decisão de um comitê econômico de banqueiros, que podem ‘criar’ trilhões de títulos e, até, criptomoedas.

Cada grão de soja, cada kg de carne, cada torrão de açúcar, para ser produzido depende da realidade, da expansão do cultivo no campo. Leva tempo, investimento, expansão da área ou da tecnologia (quando não de ambos). Não se soja em reuniões.

 

A alta das commodities não é um movimento conjuntural do mercado nem tão pouco resultado de uma seca ou quebra de produção.

A questão está na outra ponta: a demanda é que modificou e é crescente.

A mudança é de paradigma

É como, por assim, dizer um bezerro que vira um garrote. Doravante o agronegócio vive outro mundo, outra estrutura, outra relação produção / demanda.

A alta de preços não é uma alta mas sim a mudança de patamar que está atrelada ao crescimento da Ásia e o crescimento da Ásia não refluirá pela próxima década, ao inverso.

Certamente não por outra razão que Bill Gates, homem ligado ao setor de tecnologia, tornou-se o maior proprietário rural dos EUA.

Em conclusão: o agronegócio mudou na medida das mudanças geopolíticas e o enriquecimento da Ásia significa doravante um novo ‘padrão de preços’ para os produtos agropecuários.

 

Izner Hanna Garcia, advogado, pós graduado na FGV, ex professor de Processo Civil, autor de Revisão de Contratos no Novo Código Civil entre outros livros, produtor rural vive no Uruguai