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15/05/2020

Pandemia na agricultura: porteira aberta para a digitalização

Por Fernanda Diniz | com edições do Tocantins Rural

Mais digitalizada do que a dos Estados Unidos, a agricultura brasileira está preparada para se adaptar ao novo modelo de economia, chamado por especialistas de baixo contato (low touch economy). Essa é a opinião de Guy de Capdeville, diretor de Pesquisa e Desenvolvimento da Embrapa, e de Nelson Ferreira, sócio-sênior da McKinsey Consultoria. Eles falaram sobre o assunto durante debate online promovido pelo programa AgEvolution, do Canal Rural, no dia 13 de maio. Participou também Daniel Azevedo, editor-chefe do programa.

É claro que adaptações serão necessárias, como disse Capdeville, já que ninguém estava preparado para os efeitos do novo Coronavírus, mas a Embrapa há muito já investe em tecnologias de automação e conexão no campo. A chamada agricultura 4.0 já era uma das prioridades na programação de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (PD&I) da Empresa, mas com a pandemia a prioridade será maior para atender às demandas do setor produtivo.

O diretor de P&D destaca como uma das prioridades o desenvolvimento de tecnologias para reduzir o contato físico, especialmente na produção animal, visando diminuir os riscos de transmissão de doenças. Já é comprovado que as gripes suínas e aviárias são capazes de contaminar seres humanos. “Então, um dos nossos focos será investir em tecnologias automatizadas que evitem esse contato”, complementa.

Estudo comprova que agricultura brasileira é mais digitalizada do que a dos EUA

O sócio-sênior da McKinsey Consultoria falou sobre o estudo realizado pela empresa com mais de 750 agricultores de sete culturas diferentes em 11 estados brasileiros antes da pandemia, nos meses de janeiro e fevereiro. A pesquisa mostrou que o nível de digitalização brasileira é maior do que a norte-americana e que os nossos produtores são muito receptivos a novas tecnologias. No Brasil, 36% dos agricultores fazem uso de ferramentas online contra 24% nos Estados Unidos.

Segundo Ferreira, isso se deve em grande parte ao perfil jovem dos agricultores brasileiros. Em algumas culturas, como o algodão e grãos do Cerrado, 80% dos tomadores de decisão nas fazendas têm menos de 45 anos. “Com a pandemia, esse apetite por digitalização se escancarou de vez. Abriu de vez a porteira para a digitalização”, comenta

Ele explica que as transações online se tornaram mais habituais no dia a dia dos produtores. A experiência do Brasil em sites voltados à agricultura ainda não está no patamar de outros setores de e-commerce varejista, como moda, alimentação e eletrônicos, entre outros. Mas, a tendência é que cresçam com a pandemia tanto na compra de insumos, como para obtenção de crédito rural.

Outro setor que deve mudar de patamar é o de eventos, como dias de campo, feiras e visitas técnicas. “É muito provável que os virtuais passem a coexistir com os físicos num cenário futuro”, acredita.

Ferramentas digitais à disposição dos pequenos produtores no Brasil

O estudo realizado pela McKinsey mostrou que 90% dos produtores utilizam ferramentas digitais na gestão de suas propriedades. Mas, segundo o consultor, essa é uma característica mais restrita aos tomadores de decisão e que precisa ser fortalecida no campo. Os avanços nessa área esbarram em problemas de infraestrutura, especialmente a de comunicação.

Nesse sentido, o diretor de P&D da Embrapa explicou que a Empresa vem atuando fortemente para reduzir esse gargalo, disponibilizando para o setor produtivo soluções tecnológicas que aumentam a conectividade no campo. Ele citou, como exemplo, aplicativos capazes de avaliar a maturidade de frutos, sensores com inteligência artificial capazes de diagnosticar e controlar pragas nas lavouras. Essas ferramentas são gratuitas e de fácil aplicação em qualquer dispositivo móvel, logo são acessíveis a pequenos produtores.

O agricultor brasileiro confia na ciência

Capdeville destacou ainda que a Embrapa investe fortemente em programas para atrair startups de forma a colocar rapidamente as tecnologias à disposição do setor produtivo. "Iniciativas como essa já estão acontecendo com as cadeias de leite, suínos e aves e vão se estender para outros segmentos". Segundo ele, o programa "Pontes para Inovação", que busca atrair parceiros para levar os resultados das pesquisas da Embrapa ao mercado, deve direcionar o foco para produtos de baixo contato, a partir da pandemia. “Uma das prioridades é a automação na sanidade animal”, pontua. Já existem hoje tecnologias de chips em animais ligados a sensores, que permitem acompanhar a sanidade de rebanhos em relação à nutrição, uso de antibióticos etc.

Essas tecnologias são fundamentais para garantir a rastreabilidade, que certamente será mais cobrada a partir de medidas regulatórias e de higiene pós-pandemia. Segundo Ferreira, toda crise mundial é acompanhada de mudanças regulatórias. Se a de 2008 foi voltada a bancos, a do novo Coronavírus impactará questões sanitárias e de higiene.

Mas, todo o aporte tecnológico proporcionado pela ciência ao longo das últimas quase cinco décadas confere ao Brasil condições competitivas para liderar uma revolução agrícola. Segundo Capdeville, a agricultura será a solução da economia brasileira nos próximos meses. “A inteligência artificial aliada à tecnologia da informação já tem resultado em impactos reais de conectividade no campo. Por se tratar de tecnologias de fácil acesso e baixo custo, chegam facilmente aos pequenos produtores”.

Para o diretor da Embrapa, o grande diferencial do sucesso da agricultura brasileira é o próprio produtor. “O agricultor brasileiro é receptivo a novas tecnologias porque, acima de tudo, confia na ciência e no que ela pode oferecer”, finaliza.

Foto: Viviane Zanella

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