Em 1996, 41 produtores iniciaram em Pedro Afonso um desafio que parecia maior que o próprio Cerrado: transformar terras até então pouco exploradas em lavouras produtivas. Três décadas depois, o município colhe os frutos de um dos maiores acordos de cooperação internacional já firmados entre Brasil e Japão, o Programa de Cooperação Nipo-Brasileira para o Desenvolvimento dos Cerrados (Prodecer III).
A terceira fase do programa consolidou-se no Tocantins como marco da modernização agrícola. Financiado pelos governos brasileiro e japonês, por meio da Japan International Cooperation Agency (JICA), além de bancos privados japoneses, o projeto contou com investimento total de cerca de US$ 850 milhões.
O objetivo era claro: desenvolver agricultura de alta tecnologia no Cerrado, ampliar a produção de soja e grãos e estruturar um modelo baseado em crédito, tecnologia e cooperativismo, o chamado “tripé de sustentação”.
Desafios dos pioneiros
Dos 41 produtores selecionados, incluindo uma cooperativa, seis já atuavam no Tocantins: João Damasceno de Sá Filho, Euid Eduardo de Moura, Sílvio Espedito Sandri, Pedro Afonso Oliveira Tavares, Gilberto Sobreira e Antônio Milhomem de Castro. Os demais (relação completa ao final da matéria) vieram de outros quatro estados — Minas Gerais (17), São Paulo (13), Goiás (3) e Paraná (3) —, atraídos por um modelo de assentamento dirigido que exigia investimento próprio (10% do capital) e disposição para começar do zero.
O engenheiro agrônomo Pedro Afonso Oliveira Tavares, de família tradicional família pedroafonsina, conheceu o projeto ainda em 1991, quando trabalhava na Secretaria Estadual da Agricultura, em Palmas (TO). “Fiquei animado para fazer parte de algo que poderia transformar o Tocantins em um grande celeiro de alimentos”, relembra.
Selecionado pela Companhia de Promoção Agrícola (CAMPO), braço técnico responsável por executar o programa em parceria com a Brasagro (Brasil) e a Jadeco (Japão), mudou-se para Pedro Afonso em 1996. No lote 14, implantou 435 hectares de soja, além de milho, feijão irrigado e fruticultura tropical.
Pedro Afonso Tavares lembra que o grupo de agricultores enfrentou muitos obstáculos, sendo um dos principais um impasse judicial com o Banco do Brasil após a interrupção de financiamentos. A disputa se arrasta há quase três décadas. “Apesar disso, seguimos em frente graças à união dos produtores, que buscaram crédito em outras fontes”, afirma.
Cara e coragem
Assim como a dos demais produtores, a história de Mário Hiroshi Okuyama, natural de Sábaudia, no Paraná, é marcada por sacrifício e aposta no futuro. Ele trabalhava no Japão quando surgiu a oportunidade de integrar o projeto. “Foi tudo experiência. Aprendemos mais na prática do que na escola”, resume.
Ele lembra das dificuldades de comunicação, quando celulares eram raridade, e da adaptação da família ao interior. “Chegamos sem conhecer ninguém. Hoje temos amizade nos quatro cantos da cidade”, revela, lembrando que suas três filhas nasceram aqui e a mais velha, a agrônoma Érica, já trabalha com ele na propriedade.
Para o mineiro de Patos de Minas, Márcio Donizete José da Silva, o impacto inicial foi a falta de estrutura urbana. “A cidade era pequena, com poucos recursos. Pegamos o cerrado em pé e começamos do zero: desmatar, corrigir o solo, implantar o plantio direto. Era um desafio enorme”, relembra.
Segundo ele, o Prodecer III mudou não só a vida financeira dos colonos, mas toda a dinâmica regional. “Onde o Prodecer chega, chega o progresso”, afirma o produtor, que tinha 29 anos quando chegou a Pedro Afonso e era o mais jovem dos colonos.
Transformação econômica
Os números confirmam a percepção dos pioneiros. A área plantada no Tocantins tem apresentado um crescimento expressivo e linear nas últimas décadas, saltando de menos de 300 mil hectares na safra 2000/2001 para uma estimativa de 2,57 milhões de hectares na safra 2025/2026, um aumento de mais de 400%. A soja é a principal cultura, com previsão de alcançar 1,68 milhão de hectares na atual safra.
O município de Pedro Afonso passou a integrar a rota das grandes tradings internacionais. A instalação de agroindústrias, como a unidade da BP Bunge no município, consolidou o perfil agroindustrial local. O que antes era Cerrado improdutivo tornou-se área valorizada e estratégica para a exportação de grãos. “Transformamos cerrado bruto em lavoura produtiva”, resume Márcio Donizete.
Legado coletivo
Além da produção, os colonos destacam o espírito de cooperação. A criação da Cooperativa Agroindustrial do Tocantins (COAPA) para agregar os agricultores é apontada como um dos momentos mais marcantes. “Viramos praticamente uma família”, afirma Márcio Donizete.
Trinta anos depois, Pedro Afonso não é apenas um polo agrícola. Tornou-se símbolo de um modelo que uniu tecnologia, crédito estruturado e a perseverança de produtores brasileiros. “O Prodecer III foi importantíssimo para o desenvolvimento do município e do Estado”, diz Pedro Afonso. “Com trabalho e tecnologia, produzimos alimentos, riquezas e progresso”, conclui.
| Lote | Colono | Cidade de origem |
| 1 | Fulgêncio Branquinho de Oliveira | Unaí (MG) |
| 2 | João Damasceno de Sá Filho | Pedro Afonso (TO) |
| 3 | Gilberto Caixeta Borges | Paracatu (MG) |
| 4 | Manoel Albino Coelho de Miranda | Campinas (SP) |
| 5 | Roberto Yoshio Furukawa | Assaí – Paraná |
| 6 | COOPERSAN | São João da Boa Vista (SP) |
| 7 | João Gabriel da Costa Noronha | São João da Boa Vista (SP) |
| 8 | Marco Balsalobre | São Paulo (SP) |
| 9 | Denis de Campos Bernardes | Rio Verde (GO) |
| 10 | Luiz Alvino / Edson Auriema | São Paulo (SP) |
| 11 | Silvio Espedito Sandri | Pedro Afonso (TO) |
| 12 | Marcio Donizete José da Silva | Patos de Minas (MG) |
| 13 | Gilberto Sobreira | Pedro Afonso (TO) |
| 14 | Pedro Afonso de Oliveira Tavares | Pedro Afonso (TO) |
| 15 | Antônio Milhomem de Castro | Palmas (TO) |
| 16 | Carlos Vanderlei Figueira | Ibiporã (PR) |
| 17 | Elton Valdir Schmitz | Paracatu (MG) |
| 18 | Alessandro Vírgílio Zarone | Buritis (MG) |
| 19 | Silvio Peres Rodrigues | Unaí (MG) |
| 20 | Jacy Luiz da Costa | São Paulo (SP) |
| 21 | José Francisco Amaral | Muriaé (MG) |
| 22 | Ricardo Benedito Khouri | Taubaté (SP) |
| 23 | Leandro de Lima Teixeira | São João da Boa Vista (SP) |
| 24 | Cristina Carvalho de Oliveira | São João da Boa Vista (SP) |
| 25 | Evanis Roberto Lopes | Patos de Minas (MG) |
| 26 | Luiz Carlos de Lima Teixeira | São João da Boa Vista (SP) |
| 27 | Glauro Rodrigues da Silva | Unaí (MG) |
| 28 | Wilson José de Oliveira | Patrocínio (MG) |
| 29 | Arthur Hordones | Pratinha (MG) |
| 30 | Antônio Alexandre Bizão | Rio Verde (GO) |
| 31 | José Tarcizio Borges | Coromandel (MG) |
| 32 | Edmar Corrêa de Oliveira | Paracatu (MG) |
| 33 | Francisco Gonzaga Reis | São Paulo (SP) |
| 34 | José Guilherme Paggiaro | São João da Boa Vista (SP) |
| 35 | Francisco José Moura de Mendonça | Patos de Minas (MG) |
| 36 | Leonardo Queiroz Marques | Patos de Minas (MG) |
| 37 | Sebastião Antônio Diniz Nogueira | Rio Verde (GO) |
| 38 | Mário Hiroshi Okuyama | Sabáudia (PR|) |
| 39 | Claúdio Siqueira | Paracatu (MG) |
| 40 | Euid Eduardo de Moura | Pedro Afonso (TO) |
| 41 | Jorge Luiz Maronezzi | Monte Carmelo (MG) |
Por Fred Alves/Assessor de Comunicação.















