CRA, LCA e Fiagro ganham espaço como alternativas ao crédito tradicional e atraem investidores estrangeiros ao setor
O agronegócio brasileiro, responsável por mais de um quarto do Produto Interno Bruto (PIB) do país, tem se consolidado como um destino atraente para investimentos no mercado de capitais internacional. A forte participação do Brasil no comércio global de alimentos está abrindo portas para que o setor não dependa exclusivamente de crédito bancário tradicional ou de recursos próprios de produtores e cooperativas.
Tradicionalmente, o agronegócio brasileiro se apoiou em linhas de crédito rural como o Plano Safra, financiamentos de bancos públicos e privados e recursos próprios. Entretanto, nos últimos anos, uma série de instrumentos captados no mercado de capitais tem sido utilizada para financiar cadeias produtivas. Esses instrumentos incluem Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRA), Letras de Crédito do Agronegócio (LCA) e fundos especializados, como o Fundo de Investimento nas Cadeias Produtivas Agroindustriais (Fiagro).
A tendência recente também mostra que investidores estrangeiros estão mais dispostos a aportar capital no Brasil, atraídos por oportunidades que combinam retornos financeiros e exposição a uma das maiores fronteiras agrícolas do mundo. O agronegócio brasileiro possui características que reduzem alguns riscos operacionais: grande parte de sua receita está atrelada ao dólar, o que funciona como um “hedge natural” contra variações cambiais, e os ciclos agrícolas oferecem prazos de retorno relativamente previsíveis para títulos vinculados à safra, tornando esses instrumentos atrativos para investidores internacionais.
O papel da atração de investimentos
O governo brasileiro tem incentivado essa tendência por meio de iniciativas que visam facilitar o encontro entre projetos do agronegócio e investidores estrangeiros. Por meio do Portfólio de Investimentos no Agronegócio Brasileiro, o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) busca divulgar oportunidades que possam atrair capital internacional direto, seja por meio de joint ventures, aquisições, parcerias tecnológicas ou investimentos em participação societária. Essa aproximação entre setores produtivos e mercados financeiros ela reflete uma mudança na forma como o agronegócio é percebido globalmente.
A inserção do agronegócio no mercado de capitais pode trazer benefícios concretos para diferentes segmentos do setor produtivo:
- Produção de maior escala: grandes produtores podem acessar recursos para ampliar capacidade produtiva, modernizar equipamentos e investir em tecnologia agrícola de precisão.
- Cooperativas e pequenos produtores: instrumentos como CRAs e FIAGROs podem ser estruturados para permitir que cooperativas captem recursos e os repassem aos cooperados, fortalecendo economias locais.
- Atração de capital estrangeiro: a participação de investidores internacionais pode impulsionar parcerias de longo prazo e trazer expertise em governança corporativa, sustentabilidade e gestão financeira.
Riscos e desafios
Apesar das oportunidades, há riscos que merecem atenção. A entrada no mercado de capitais expõe produtores e empresas a volatilidade de preços, expectativas de performance financeira e governança corporativa exigida por investidores externos. Além disso, investimentos estrangeiros podem aumentar a pressão por resultados de curto prazo, o que nem sempre se alinha com a natureza cíclica da produção agrícola.
Outro ponto está ligado à governança e à sustentabilidade: investidores institucionais internacionais costumam exigir práticas ambientais e de responsabilidade social mais rígidas, o que pode implicar investimentos adicionais em certificações, rastreabilidade e conformidade com padrões ESG (Environmental, Social and Governance). Essa exigência pode representar um custo de adaptação, mas também impulsiona melhorias que aumentam a competitividade dos produtos brasileiros no exterior.
O encontro entre agronegócio e mercado financeiro é mais do que uma tendência passageira. Ele representa uma transformação na forma como o setor se financia, cresce e interage com investidores globais. Em um mundo em que a demanda por alimentos continua a crescer e a competição por recursos financeiros se intensifica, instrumentos como CRAs, LCAs e FIAGROs se tornam ferramentas estratégicas para impulsionar o agro brasileiro.
Para produtores, cooperativas e investidores estrangeiros, essa dinâmica abre novos caminhos para crescimento sustentável. Mas também exige capacitação, transparência e governança para que os recursos sejam aplicados de maneira eficaz e gerem resultados sólidos em todas as etapas da cadeia produtiva.
Por Dr. Gabriel Soares Messias, Advogado associado da Fraz Advocacia. Mestre em Prestação Jurisdicional e Direitos Humanos pela Universidade Federal do Tocantins (UFT). Especialista em Direito Empresarial (São Judas). Graduado em Direito pela Universidade Estadual do Tocantins (Unitins). Professor de Direito Civil e Empresarial da UFT/Arraias.


















