O primeiro avião agrícola autônomo pode ter superado a etapa mais exigente para inovações no agronegócio: a aprovação do produtor rural. Com 79 unidades já comercializadas no Brasil, o modelo Pelican Spray apresenta resultados vantajosos.
Essa é a avaliação de Rafael Bortoli, CEO do Grupo Natter, que cultiva 55 mil hectares de soja, milho e algodão no Mato Grosso. O grupo também atua na pecuária com um rebanho de 13 mil cabeças de bovinos, piscicultura, viticultura e nutrição de plantas. A empresa administra 42 mil hectares de terra e unidades industriais.
“Conhecemos o equipamento em uma feira e decidimos assumir o risco de testar uma tecnologia ainda pouco difundida. Não havia cases no Brasil, então fizemos uma aposta. E hoje já acredito que está dando certo”, comenta.
Rafael tem perfil vanguardista na adoção de tecnologias. Ele também usa robótica e internet das coisas (IoT, Internet of things, em inglês) nas atividades agrícolas do grupo. O Pelican Spray, desenvolvido pela startup americana Pyka, está operando na propriedade desde o final do ano passado para pulverização de lavouras de soja e algodão.
“Como toda nova tecnologia, precisamos nos estruturar. Antes mesmo da chegada do equipamento, buscamos informações sobre a estrutura necessária para garantir eficiência operacional”, explica.
De acordo com ele, a fazenda adaptou uma estrutura em terra para troca rápida de baterias e abastecimento simultâneo, reduzindo o tempo em solo. “Isso foi essencial para garantir agilidade e bom aproveitamento da aeronave”, avalia.
Outro diferencial importante foi um conjunto de pistas de pouso. Como o Pelican precisa de apenas 50 metros para pouso e decolagem, o Grupo Natter construiu várias pistas dentro da mesma unidade produtiva.
“Nem o software estava preparado para operar em múltiplas pistas na mesma fazenda. Em parceria com a equipe técnica, atualizamos o sistema para permitir essa operação. Isso aumentou significativamente o rendimento”, conta.
A preparação permitiu que a aeronave pulverizasse 123 hectares em uma hora, acima inclusive dos 90 hectares por hora previstos pelo fabricante. A operação pôde cobrir 881 hectares em um turno. “Foi o melhor rendimento com qualquer tecnologia que tivemos até agora”, afirma.
Voo noturno
A aeronave pode operar à noite justamente por não ser ocupada por seres humanos. A legislação brasileira não permite pulverização aérea tripulada no período noturno.
“Em dois turnos, podemos dobrar a eficiência. Nesse cenário, a produtividade supera a de aeronaves agrícolas tradicionais como o Ipanema ou o Air Tractor”, compara.
Aviões agrícolas convencionais cobrem em média 160 hectares por hora. Além de ampliar a área coberta em menos tempo, outra vantagem da pulverização aérea noturna seria aproveitar melhor as janelas climáticas.
“Às vezes, chove durante o dia, mas o clima é perfeito durante a noite. Isso favorece a pulverização e também aplicação de nutrição foliar. As plantas ficam com os estômatos abertos durante a noite”, analisa.
A aeronave autônoma exige dois operadores. Ainda assim, segundo ele, o custo de operação é menor do que o de uma aeronave agrícola tradicional. Segundo o fabricante, o custo por hectare pulverizado fica entre US$ 1 e US$ 2 com o Pelican. Aviões convencionais custam 30% mais para a mesma atividade.
”O custo de aquisição é alto, mas ao longo do tempo o equipamento vai se pagar, inclusive pelo menor custo de manutenção. Eu acredito que o futuro da pulverização será autônomo”, afirma Rafael.
Cada unidade do Pelican Spray custa a partir de US$ 550 mil, ou cerca de R$ 2,9 milhões, livre de impostos. “Em um avião agrícola tradicional, há revisões frequentes de motor ou turbina que têm custo elevado. Só a economia nessas manutenções já representa uma vantagem importante”, acrescenta.
Menos deriva
O sistema de pulverização do Pelican foi desenhado com foco em precisão e redução da deriva, que é quando a calda dos defensivos não chega no alvo. Antes mesmo de consolidar a operação, a equipe do Grupo Natter e a Synerjet realizaram estudos para definir o melhor conjunto de barras e atomizadores.
De acordo com Rafael, a melhoria na padronização das gotas ampliou o potencial de controle de pragas e doenças. Ele acredita que o resultado será especialmente positivo em culturas sensíveis como o algodão, onde o combate ao bicudo exige frequência e eficiência.
“Com a qualidade da aplicação que estamos alcançando, temos potencial para um controle mais eficiente da praga”, diz.
Segundo Mateus Delacqua, diretor da Synerjet, que é representante do Pika no Brasil, o Pelican voa a 120 km/h, não a 200 km/h, o que reduz as quebras secundárias das gotas.
“A menor velocidade operacional diminui a fragmentação adicional das gotas no ar, reduzindo a formação de partículas muito finas e suscetíveis ao deslocamento pelo vento”, comenta.
Além disso, segundo ele, o desenho aerodinâmico também contribui para maior estabilidade da nuvem de pulverização. “O formato da asa gera menor vórtice, o que minimiza o impacto da deriva. Tudo isso é rastreável e demonstrável”, explica Delacqua.
Assim, o Grupo Natter consegue realizar aplicações a cada três dias, se necessário, mesmo com a grande escala de área cultivada. Outro diferencial é a eliminação do tráfego de máquinas em solo, evitando compactação e amassamento de plantas em períodos chuvosos.
“Esse é um gargalo que conseguimos resolver com a aeronave autônoma.”
Fila até 2029
Após pouco mais de um ano do lançamento comercial no Brasil, o Pelican já acumula 79 aeronaves vendidas e 14 em operação.
“Temos entregas programadas até 2029. Para 2026, a previsão é entregar cerca de 20 unidades. Ao menos três desses clientes já encomendaram novas unidades”, destaca Mateus.
Ele explica que, tecnicamente, o Pelican é um drone, ou VANT (Veículo Autônomo Não Tripulado), mas é único pelo seu tamanho. O modelo tem dimensões comparáveis às de um avião Ipanema, com 11,5 metros de envergadura, capacidade para 300 litros de calda e peso máximo de decolagem de 600 quilos.
Do ponto de vista regulatório, o Pelican opera sob um enquadramento específico. Por ser uma aeronave autônoma, está registrada no Sisante, sistema da Anac (Agência Nacional de Aviação Civil) destinado a equipamentos não tripulados.
Apenas uma unidade está no RAB (Registro Aeronáutico Brasileiro), justamente a que chegou ao país em 2021 para testes.
Grandes propriedades
Mateus acrescenta que o perfil dos compradores é de grandes grupos agrícolas, como SLC Agrícola, Crestani, Amaggi, Agro Cavalca e próprio Grupo Natter. “Propriedades a partir de 2 mil hectares já entram no radar de viabilidade econômica”, calcula.
As aeronaves em operação estão distribuídas por todo o território nacional, majoritariamente em operações de grãos e fibras, além de um projeto em cana-de-açúcar.
Por Globo Rural.
















