O movimento de alta nos preços do bezerro não é novidade para quem acompanha o mercado. A pecuária vive uma mudança de ciclo, após o intenso abate de fêmeas registrado nos últimos anos. Com a maior retenção de matrizes e escassez de animais para reposição, a valorização da categoria era inevitável.
“Era esperado que o aumento do preço do bezerro já acontecesse no final de 2024 e, em 2025, ele começou a dar sinais mais claros”, afirma o diretor técnico da Associação dos Criadores de Mato Grosso (Acrimat), Francisco Manzi. Segundo dados do Cepea, a categoria está sendo negociada acima dos R$ 3 mil na maior parte do país.
Manzi destaca que a reposição é um dos principais custos para o pecuarista que faz recria e engorda. Por isso, a alta nos preços de reposição impacta diretamente a rentabilidade da atividade.
Em Mato Grosso do Sul, por exemplo, o bezerro acumula alta de mais de 20% em um ano, passando de R$ 2.682,98 em março de 2025 para R$ 3.252,70 em março de 2026.
Custo da reposição pesa mais para sistemas a pasto
De acordo com o diretor da Acrimat, os impactos da valorização do bezerro variam conforme os sistemas de produção.
“Para a pecuária feita totalmente a pasto, o impacto é maior, porque o bezerro está mais valorizado e o animal acaba permanecendo mais tempo na fazenda. Isso torna o custo da reposição mais expressivo”, diz Manzi.
Segundo ele, nos sistemas mais intensivos, o custo da alimentação um pouco mais baixo ajuda a aliviar parte da pressão. “Uma ração mais atrativa acaba compensando um pouco, mas ainda assim é um impacto importante.”
Mesmo com a valorização da arroba do boi gordo, Manzi avalia que a margem pode não ser a mesma registrada em períodos em que o bezerro estava mais barato.
Bezerro tem espaço para subir ainda mais
Sazonalmente, março e maio são os meses que apresentam os maiores patamares de preços de reposição. Isso porque esse é o período em que ocorre a maior parte das desmamas nas fazendas.
Apesar da maior oferta de animais nessa época do ano, a expectativa segue positiva para o mercado. “Os preços do bezerro devem continuar firmes e com valorizações. A expectativa é de uma oferta mais limitada de animais, o que abre espaço para o mercado subir”, afirma Hyberville Neto, diretor da HN Agro.
Ele ressalta, porém, que o comportamento da reposição também depende do desempenho do mercado do boi gordo. Neto explica que quando o mercado apresenta oscilações, a relação de troca pode se deteriorar e gerar mais cautela por parte de quem compra animais para recria e engorda.
Guilherme Tonhá, diretor comercial da Estância Bahia Leilões, também avalia que a oferta restrita de animais deve continuar sustentando o mercado.
“A tendência é manter os preços firmes porque a oferta está muito baixa, tanto nos leilões quanto nas negociações diretas nas fazendas”, diz.
O pecuarista, contudo, não deixará de investir na reposição por causa dos preços em alta. “Quando não tem oferta, o comprador acaba sendo obrigado a pagar mais caro”, reforça. Segundo ele, os valores já superam os patamares registrados no último pico do ciclo pecuário, em 2021.
Estratégia e controle de custos ganham peso
Apesar do cenário positivo para quem vende bezerro, os especialistas alertam que a reposição mais cara exige maior planejamento por parte dos pecuaristas que atuam na recria e engorda.
“Quando a reposição fica mais cara, o pecuarista precisa redobrar o cuidado para que a conta feche. A eficiência da porteira para dentro passa a ser ainda mais importante”, diz Tonhá.
O diretor técnico da Acrimat, Francisco Manzi, tem uma percepção semelhante. “Preço não é margem. O mais importante é o pecuarista ter noção exata de cada custo, desde a reposição e os insumos até mão de obra e impostos”, observa.
De acordo com ele, como a pecuária é uma atividade de longo prazo, decisões tomadas hoje podem impactar a rentabilidade apenas anos depois.
Por isso, Manzi reforça que a eficiência dentro da propriedade se torna cada vez mais decisiva. “Hoje não tem mais espaço para amador. O pecuarista precisa calcular bem cada decisão para que a conta feche no final.”
Por Canal Rural.















