Estudos apontam redução de gastos com lazer e alimentação entre apostadores; medida que proíbe apostas de quota fixa entrou em vigor em setembro e prevê transição para encerramento das plataformas
A proibição das apostas de quota fixa no Brasil pode provocar mudanças na forma como parte dos consumidores distribui a renda entre lazer, alimentação e outros gastos do orçamento familiar.
Desde 25 de setembro, a Medida Provisória nº 1.394/2026 proíbe, em todo o território nacional, a exploração, a oferta, a intermediação e a publicidade das chamadas bets, tanto em meio físico quanto virtual. A medida alcança apostas esportivas e jogos on-line de quota fixa.
O texto estabelece um período de transição para o encerramento das operações atualmente autorizadas. A medida tem força de lei desde a publicação, mas ainda precisa ser analisada pelo Congresso Nacional para permanecer em vigor de forma definitiva. Entidades representantes das empresas de apostas também recorreram ao Supremo Tribunal Federal contra a proibição.
Além dos impactos diretos sobre o mercado de apostas, a mudança pode repercutir em outros segmentos da economia, especialmente aqueles dependentes da renda disponível das famílias.
Apostas reduziram consumo em bares e restaurantes
O setor de alimentação fora do lar está entre os segmentos que vinham apontando perda de consumo associada ao crescimento das apostas on-line.
Pesquisa divulgada em 2025 mostrou que 28,5% dos apostadores entrevistados afirmaram já ter deixado de frequentar restaurantes, bares ou sair com amigos porque haviam comprometido parte da renda com apostas. Em 2024, o percentual era de 24,8%.
Os dados indicam que o impacto não se restringe à quantidade de dinheiro destinada diretamente às plataformas. Quando o orçamento fica comprometido, despesas com lazer e alimentação fora de casa também podem ser reduzidas.
Para bares e restaurantes, esse comportamento pode aparecer tanto na diminuição da frequência dos clientes quanto na redução do valor gasto a cada visita.
R$ 143 bilhões deixaram de circular no varejo, estima CNC
O efeito das apostas sobre o consumo também foi analisado pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC).
Segundo estimativa divulgada pela entidade, a inadimplência associada às bets teria retirado R$ 143 bilhões do comércio varejista entre janeiro de 2023 e março de 2026.
A CNC também estimou que aproximadamente 270 mil famílias podem ter chegado à situação de inadimplência severa, caracterizada por atrasos superiores a 90 dias.
A interpretação da CNC é contestada por representantes do setor de apostas, que argumentam que o endividamento das famílias também está relacionado a fatores estruturais, como juros, crédito e custo de vida, e questionam a metodologia usada para atribuir parte das perdas do comércio diretamente às bets.
Dinheiro pode voltar para outros segmentos?
Com a retirada gradual das plataformas autorizadas do mercado, uma das questões passa a ser para onde será direcionado o dinheiro que anteriormente era utilizado nas apostas.
Parte desses recursos pode retornar a despesas tradicionais das famílias, como alimentação, comércio, serviços e lazer. No entanto, ainda não há dados suficientes para medir quanto desse dinheiro efetivamente será convertido em aumento de consumo nesses segmentos.
Também existe preocupação de que uma parcela dos apostadores migre para plataformas ilegais. Esse é um dos argumentos apresentados por entidades do setor que contestam a proibição.
O governo federal, por outro lado, criou um comitê interinstitucional para fiscalizar a exploração e a publicidade ilegal de apostas e adotar medidas como bloqueio de sites, interrupção de fluxos financeiros e retirada de publicidade irregular.
Mudança recente no mercado
Antes da publicação da nova medida, o Brasil operava sob um mercado regulamentado de apostas de quota fixa. Desde janeiro de 2025, apenas empresas autorizadas pela Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda podiam operar nacionalmente.
Em agosto de 2026, 85 empresas estavam habilitadas a explorar a modalidade no país.
A MP publicada em setembro mudou esse cenário ao determinar a proibição das apostas de quota fixa e o encerramento das autorizações existentes.
Os efeitos sobre o consumo das famílias, bares, restaurantes e comércio deverão ficar mais claros nos próximos meses, à medida que o processo de transição avance e seja possível comparar o comportamento dos consumidores antes e depois da mudança.
Com informações do Blog Consumer.


















