Balão previsto para o próximo semestre vai levar grão-de-bico, batata-doce, cogumelos e microrganismos a cerca de 30 quilômetros de altitude
A capital Palmas será ponto de partida de um experimento brasileiro voltado ao desenvolvimento da agricultura espacial. No próximo semestre, um balão deverá decolar da capital tocantinense levando sementes, mudas, fungos e cogumelos a cerca de 30 quilômetros de altitude, em uma região da atmosfera conhecida como estratosfera.
Durante o experimento, os materiais serão submetidos a condições extremas, como baixa pressão, frio intenso e microgravidade.
O objetivo é entender como plantas e microrganismos se comportam em ambientes semelhantes aos encontrados fora da Terra e avançar no desenvolvimento de sistemas capazes de produzir alimentos no espaço.
A carga incluirá sementes de grão-de-bico, mudas de batata-doce e diferentes tipos de fungos.
Agricultura no espaço pode gerar soluções para a Terra
Além de contribuir para futuras missões espaciais, os estudos também podem gerar tecnologias aplicáveis à agricultura em condições adversas no próprio planeta.
As pesquisas buscam desenvolver plantas e sistemas capazes de produzir alimentos em ambientes com pouca gravidade, radiação elevada, ausência de solo e disponibilidade limitada de água e nutrientes.
Esse tipo de conhecimento pode contribuir, por exemplo, para o desenvolvimento de cultivares mais resistentes à seca e a outros cenários de estresse ambiental.
A iniciativa é da Rede Space Farming Brazil, coordenada pela Embrapa e pela Agência Espacial Brasileira (AEB). O grupo reúne cerca de 60 pesquisadores de 24 instituições, entre elas o Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e universidades públicas.
A rede também integra as contribuições brasileiras ao Programa Artemis, liderado pela Nasa e voltado ao desenvolvimento de tecnologias para futuras missões de exploração espacial.
Fungos podem ajudar plantas a sobreviver em condições extremas
Uma das linhas de pesquisa investiga o papel de microrganismos no desenvolvimento das plantas.
Pesquisadores estudam como fungos dos gêneros Trichoderma e micorrízicos arbusculares podem atuar como uma extensão das raízes, aumentando a capacidade de absorção de nutrientes como nitrogênio, fósforo e potássio.
Os experimentos envolvem o cultivo de grão-de-bico associado a fungos micorrízicos e de batata-doce com Trichoderma.
A próxima etapa inclui o plantio em um composto que simula o regolito, material semelhante ao encontrado na superfície lunar.
Segundo os pesquisadores, esse conhecimento também pode ser útil em áreas degradadas na Terra, especialmente em solos com condições desfavoráveis ao desenvolvimento das plantas.
Microgravidade altera crescimento das raízes
Parte dos estudos vem sendo realizada em laboratório com equipamentos capazes de simular os efeitos da microgravidade.
Um deles é o clinostato, desenvolvido na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo (Esalq/USP). O equipamento gira continuamente e permite observar alterações fisiológicas das plantas em condições semelhantes às encontradas no espaço.
Entre os efeitos já identificados está o crescimento desordenado das raízes.
Em testes com nabos, parte das raízes cresceu em diferentes direções, comportamento que pode dificultar o cultivo em ambientes de microgravidade.
Experimentos com grão-de-bico também apresentaram limitações no desenvolvimento das plantas.
Experimento partirá de Palmas
O próximo passo será levar esses materiais para condições reais de alta altitude.
O balão que deve partir de Palmas transportará sementes de grão-de-bico, mudas de batata-doce, Trichoderma e cogumelos até cerca de 30 quilômetros acima da superfície terrestre, onde permanecerão expostos por algumas horas.
Depois do retorno, os pesquisadores deverão comparar os resultados com os obtidos nos experimentos realizados em laboratório.
A expectativa é reunir novas informações sobre a capacidade de sobrevivência e adaptação de plantas e microrganismos em condições extremas e avançar no desenvolvimento de tecnologias para produção de alimentos tanto no espaço quanto em ambientes adversos na Terra.
Com informações do Valor Econômico.


















