Produtora rural de Barrolândia trocou o comércio pela vida no campo, criou a Font’Fruit Polpas Naturais e teve sua trajetória reconhecida pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) como exemplo de empreendedorismo feminino rural.
O que antes se perdia no chão do Cerrado hoje gera renda, fortalece a agricultura familiar e chega à mesa de milhares de estudantes. Em Barrolândia, região central do Tocantins, a produtora rural Vayrene Milhomem da Silva transformou frutos nativos em uma agroindústria familiar de polpas e se tornou referência em empreendedorismo no campo. Sua história ganhou reconhecimento internacional ao ser destacada pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) como exemplo do protagonismo das mulheres rurais.
À frente da Font’Fruit Polpas Naturais, Vayrene conduz, ao lado da família, uma agroindústria registrada no Ministério da Agricultura que comercializa polpas de frutas para consumidores, feiras livres e programas governamentais, incluindo a alimentação escolar.
Do comércio para a produção rural
Antes de ingressar na atividade rural, Vayrene administrava um pequeno mercado. A mudança aconteceu há cerca de 20 anos, quando herdou dos pais a Fazenda São Jorge, uma propriedade de 135,5 hectares localizada em Barrolândia.
Foi então que decidiu trocar o comércio pela produção rural. Observando a grande quantidade de frutos nativos que se perdiam durante a safra, enxergou uma oportunidade de agregar valor à produção e criar uma nova fonte de renda para a família.
Frutos do Cerrado ganharam valor agregado
A ideia de produzir polpas surgiu da abundância de espécies típicas do Cerrado, como buriti, murici, pequi, cagaita, tamarindo e araçá-boi, que antes eram pouco aproveitadas e muitas vezes acabavam se perdendo no campo.
Hoje, a Font’Fruit processa uma ampla variedade de frutas, entre elas acerola, banana, goiaba, manga, caju, cupuaçu, graviola, maracujá, abacaxi, buriti, murici, pequi, cagaita, tamarindo e araçá-boi. A produção combina frutas cultivadas na propriedade com o extrativismo sustentável de espécies nativas do Cerrado.
Além de reduzir o desperdício, o processamento permitiu ampliar o período de comercialização e agregar valor aos produtos da agricultura familiar.
Agroindústria foi construída aos poucos
Transformar o projeto em realidade exigiu planejamento e persistência. Sem capital suficiente para construir a fábrica, Vayrene iniciou o negócio adquirindo apenas uma despolpadeira para processar os frutos produzidos na propriedade.
Ao mesmo tempo, passou a investir na criação de gado. A estratégia era simples: comprar um bezerro a cada dois meses e utilizar o recurso obtido com a venda dos animais para financiar, gradativamente, a construção da agroindústria e a compra de equipamentos.
Com o crescimento da estrutura, a família conquistou o registro junto ao Ministério da Agricultura, etapa fundamental para ampliar a comercialização e atender novos mercados.
Produção abastece escolas públicas
Com a regularização da agroindústria, a Font’Fruit passou a fornecer produtos por meio do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), iniciativas que priorizam a compra da agricultura familiar para abastecer escolas da rede pública.
O processo de adequação da fábrica contou com apoio da Secretaria Municipal de Agricultura de Barrolândia e da Secretaria da Agricultura, Pecuária e Aquicultura do Tocantins, por meio da Gerência de Fomento à Agroindústria, responsável pela orientação técnica para obtenção do registro sanitário.
Reconhecimento da FAO
A trajetória da produtora foi escolhida pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) para integrar a campanha “15 dias de iniciativas transformadoras”, realizada em homenagem ao Dia Internacional das Mulheres Rurais.
A iniciativa reúne histórias de agricultoras que contribuem para o desenvolvimento sustentável, a segurança alimentar e o fortalecimento da agricultura familiar em diferentes regiões do mundo.
Além de comandar a agroindústria, Vayrene também atua como tesoureira da Associação dos Produtores Rurais e Gastronômicos de Paraíso do Tocantins (AFEIPAR), incentivando o fortalecimento da produção regional e o protagonismo feminino no campo.
Planos para o futuro
Após consolidar a agroindústria, a produtora planeja ampliar a área cultivada, atualmente com cerca de um alqueire e meio, implantar sistemas de irrigação e investir em novas tecnologias para aumentar a produtividade.
A expectativa é continuar agregando valor aos frutos do Cerrado e ampliar as oportunidades para outras famílias que vivem da agricultura familiar e do extrativismo sustentável na região.
Para Vayrene, fortalecer a produção local também significa incentivar outras mulheres rurais a empreender e transformar os recursos naturais do Cerrado em desenvolvimento, renda e qualidade de vida para suas comunidades.
















