Vice-presidente da Aprosoja Tocantins aponta potencial de expansão para cerca de 3 milhões de hectares, mas destaca desafios com crédito, logística, armazenagem e produtividade
Com cerca de 1,6 milhão de hectares cultivados atualmente, o Tocantins ainda tem espaço para praticamente dobrar sua área agrícola sem a necessidade de avançar sobre novas áreas de vegetação nativa. A avaliação é do vice-presidente da Aprosoja Tocantins, Thiago Facco, que aponta as pastagens degradadas como uma das principais alternativas para a continuidade da expansão da produção no estado.
Em entrevista concedida ao Jornal Opção Tocantins, Facco analisou o atual momento do agronegócio tocantinense, os desafios enfrentados pelos produtores e as perspectivas para os próximos anos. Segundo ele, o estado reúne condições climáticas e geográficas que favorecem a agricultura, mas precisa avançar em infraestrutura, armazenagem, acesso ao crédito e aumento da produtividade.
“Hoje, o Tocantins tem condições de chegar a aproximadamente 3 milhões de hectares de produção sem abrir novas áreas de vegetação nativa, utilizando principalmente pastagens degradadas”, afirmou.
De acordo com Facco, existem quase 2 milhões de hectares de áreas que já passaram por algum tipo de intervenção e que poderiam ser incorporadas ao sistema produtivo. Para ele, o avanço também pode ocorrer em conjunto com a intensificação da pecuária, permitindo maior produção de animais em áreas menores.
O vice-presidente lembra que, quando chegou ao Tocantins, em 2003, o estado cultivava aproximadamente 168 mil hectares. Em pouco mais de duas décadas, a área aumentou quase dez vezes.
Clima e localização favorecem produção
Na avaliação de Facco, dois fatores ajudam a explicar o crescimento agrícola tocantinense: a condição climática e a localização geográfica.
Inserido no Matopiba, o Tocantins possui acesso a diferentes corredores de escoamento, incluindo o Arco Norte, além da Ferrovia Norte-Sul e de projetos ferroviários que podem ampliar a integração com outras regiões produtoras.
Outro diferencial apontado é a possibilidade de realizar mais de uma safra dentro do mesmo ano agrícola. Segundo Facco, o estado costuma concentrar chuvas entre outubro e maio, permitindo o cultivo da soja na primeira safra e de outras culturas na sequência.
A segunda safra, segundo ele, tende a ganhar cada vez mais importância. Além do milho, sorgo, gergelim e diferentes tipos de feijão aparecem entre as culturas com potencial de expansão.
“O Tocantins precisa explorar mais a segunda safra. Nós temos solo, clima e água”, afirmou.
Facco destaca que culturas com mercado de exportação podem oferecer maior liquidez aos produtores. Entre os exemplos estão o sorgo, que ganhou espaço com a abertura de mercados externos, o gergelim e variedades de feijão, como o mungo preto e o mungo verde.
Safra começa em cenário de crédito apertado
Apesar do potencial de crescimento, a safra 2026/2027 começa em um cenário considerado mais difícil pelo representante da Aprosoja Tocantins.
O vazio sanitário da soja no estado termina em 30 de setembro, permitindo o início do plantio a partir de 1º de outubro. Facco afirma, no entanto, que produtores enfrentam dificuldades para adquirir fertilizantes, combustível e outros insumos necessários à implantação das lavouras.
Segundo ele, cerca de metade das propriedades ainda não tinha fertilizante disponível às vésperas do início da janela de plantio.
“O endividamento do produtor aumentou, a rentabilidade ficou muito apertada e o cenário está difícil”, declarou.
Facco atribui parte desse quadro ao aumento dos custos de produção, às taxas de juros elevadas e à dificuldade de acesso ao crédito. Na avaliação dele, muitos agricultores se alavancaram durante um período em que havia maior oferta de financiamento e, posteriormente, passaram a enfrentar juros mais altos e margens menores.
Ele também cita o aumento de casos de recuperação judicial no campo. Conforme os números mencionados pelo vice-presidente durante a entrevista, cerca de 31 produtores ou empresas estariam nessa situação no Tocantins, com possibilidade de crescimento desse número.
Armazenagem é um dos principais gargalos
A expansão da agricultura tocantinense também esbarra na capacidade de armazenamento da produção.
De acordo com Facco, o estado não consegue armazenar nem 30% do volume produzido, o que obriga o setor a escoar parte significativa da safra rapidamente.
“Também temos um déficit muito grande de armazenagem. Hoje não conseguimos armazenar nem 30% do que produzimos”, afirmou.
A logística aparece ao lado da armazenagem como um dos principais desafios. Embora considere que o Tocantins possui uma malha rodoviária razoável, Facco defende melhorias nas estradas, manutenção das estruturas existentes e avanço dos projetos de integração logística.
Uma particularidade do estado, segundo ele, é a distribuição da produção. A soja é cultivada em mais de 120 dos 139 municípios tocantinenses, o que exige uma estrutura logística capaz de atender diferentes regiões.
Para Facco, esse cenário é diferente de estados onde a produção está concentrada em poucos polos agrícolas.
Produzir mais na mesma área
Além da expansão sobre áreas de pastagens já abertas, o vice-presidente da Aprosoja defende maior investimento em produtividade.
Segundo ele, o caminho passa pela agricultura de precisão, correção adequada dos solos e uso mais eficiente de fertilizantes e nutrientes.
“Precisamos verticalizar a produção, produzir mais na mesma área”, afirmou.
Facco avalia que muitos produtores conhecem as técnicas necessárias para melhorar o desempenho das lavouras, mas enfrentam dificuldades financeiras para investir em calcário, gesso, fósforo, potássio e outras correções.
Como a agricultura depende fortemente de financiamento, períodos de margens menores reduzem a capacidade de realizar esses investimentos.
Tecnologia muda rotina dentro das propriedades
A transformação tecnológica das fazendas também tem alterado o perfil da mão de obra rural.
Máquinas com sistemas embarcados, drones, agricultura de precisão e ferramentas digitais exigem trabalhadores cada vez mais preparados. Facco afirma que instituições como Senar e Faet, além dos próprios produtores, têm contribuído para a capacitação dos profissionais.
“Muitos trabalhadores entram na fazenda para exercer funções mais manuais e acabam crescendo profissionalmente, aprendendo a operar máquinas e se tornando profissionais valorizados dentro da propriedade”, relatou.
Mesmo com a modernização, ele considera a disponibilidade de trabalhadores um dos principais desafios internos das propriedades.
Segundo Facco, a tendência é de redução gradual do número de funcionários em algumas operações à medida que as máquinas aumentam de tamanho e incorporam novas tecnologias, ao mesmo tempo em que cresce a demanda por profissionais qualificados.
Clima exige cautela no planejamento
Ao comentar as perspectivas climáticas para a safra, Facco afirmou que os produtores estão atentos à possibilidade de influência do El Niño.
Segundo ele, projeções avaliadas pelo setor apontam possibilidade de redução das chuvas, especialmente no Matopiba. O impacto, porém, dependerá de como essa precipitação será distribuída ao longo dos meses.
“Se essa redução vier de forma distribuída, sem grandes períodos de estiagem, o impacto não será tão grave”, avaliou.
Para o produtor, o maior risco seria a ocorrência de períodos prolongados sem chuva acompanhados de temperaturas elevadas durante fases importantes do desenvolvimento das lavouras.
Facco considera que as áreas agrícolas do Tocantins estão hoje mais estruturadas do que em eventos climáticos anteriores, com maior presença de matéria orgânica e manejo mais consolidado.
Diante das margens mais apertadas, porém, ele defende cautela. “Neste momento, é preciso fazer um plantio consciente. Não dá para arriscar como em outros anos, porque a margem está muito pequena”, afirmou.
Tocantins pode ampliar participação no agro nacional
Mesmo diante dos desafios atuais, Facco mantém uma perspectiva de expansão da agricultura tocantinense no longo prazo.
Para ele, a combinação de topografia, clima, disponibilidade de áreas já abertas e localização dentro do Matopiba coloca o estado em uma posição favorável para ampliar sua participação na produção brasileira.
O vice-presidente avalia que o Tocantins pode avançar especialmente na soja e no sorgo, além de manter a força da pecuária.
“A agricultura do Tocantins não vai parar. Ela continuará crescendo. Mas alguns agricultores podem acabar saindo da atividade”, ponderou.
Facco destaca que o crescimento do setor não significa necessariamente a permanência do mesmo perfil de produtores. Segundo ele, dificuldades financeiras e o ganho de escala podem estimular processos de arrendamento e concentração de áreas, embora as características fundiárias do Tocantins sejam diferentes das observadas em grandes regiões produtoras de Mato Grosso e Bahia.
Na avaliação do representante da Aprosoja, o desafio será transformar o potencial disponível em produção de forma eficiente e sustentável.
“As novas fronteiras agrícolas estão justamente em regiões como o Matopiba, e o Tocantins é uma das principais áreas”, concluiu.
Com informações de entrevista concedida por Thiago Facco, vice-presidente da Aprosoja Tocantins, ao Jornal Opção Tocantins.
















