Uma das consequências mais evidentes do conflito no Oriente Médio é a alta do preço do petróleo, o que, no caso do agronegócio brasileiro, ocorre justamente no momento de pico da demanda por transporte rodoviário para o escoamento da safra. Isso tende a pressionar ainda mais as margens no campo, onde, por causa da desvalorização dos grãos no mercado internacional, os produtores rurais já enfrentam um quadro de queda de rentabilidade.
Na sexta-feira (6/3), o barril do petróleo Brent fechou a US$ 92,69, após subir 27% em uma semana de conflito. Caso a guerra se intensifique e o petróleo se aproxime de US$ 100, o preço do diesel no Brasil pode ter um acréscimo de R$ 0,40 a R$ 0,70 por litro, estima a ValeCard, empresa que presta serviços de gestão de frota e controle de abastecimento.
Segundo Marcelo Braga, diretor de Mobilidade e Operações da ValeCard, o cálculo considera o dólar entre R$ 5 e R$ 5,50 e o repasse integral da alta do petróleo ao mercado interno. A decisão sobre o nível de repasse depende da política de preços da Petrobras e também das rotas de escoamento, do ritmo da demanda e do tipo de carga.
O conflito no Oriente Médio já teve reflexos sobre os preços do combustível. De acordo com o levantamento que a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) realizou entre os dias 1 e 6 de março divulgou na sexta-feira (6/3), o preço do diesel S10 subiu 1%, o equivalente a seis centavos, passando de R$ 6,09 para R$ 6,15 o litro.
O presidente da Associação Brasileira de Produtores de Soja (Aprosoja Brasil), Maurício Buffon, afirma que as despesas com frete e combustíveis representam entre 25% e 30% do custo de produção total no campo.
“Esse percentual corresponde ao gasto só para tirar o produto da lavoura e escoar, mas também se usa diesel dentro da fazenda, para outros processos, como o abastecimento das máquinas que fazem a colheita”, afirma.
De acordo com o dirigente, esta será a primeira vez que os produtores rurais terão de lidar com aumentos simultâneos dos preços de combustíveis e fertilizantes — o Irã é um importante fornecedor de ureia ao Brasil.
“Tivemos aumento do custo dos combustíveis na pandemia de covid-19, mas, naquele momento, o fertilizante estava mais barato. Agora, cerca de 50% do custo de produção pode ficar comprometido, a depender de quanto a guerra for se estender”, disse Buffon. Os adubos representam 20% das despesas nas lavouras.
Restrição logística
Nesta safra (2025/26), o agronegócio brasileiro já enfrentava restrições logísticas antes mesmo do início do conflito no Oriente Médio. A colheita está andando com mais rapidez do que na temporada anterior. Essa antecipação da colheita não só elevou a demanda por fretes em janeiro e fevereiro como coincidiu com um período mais chuvoso na Região Norte, um quadro que prejudicou a passagem de caminhões por um trecho rodoviário em Miritituba (PA) que dá acesso a portos do Arco Norte.
“Essa situação resultou em cargas paralisadas, aumento do tempo de espera e necessidade de reajuste dos valores de frete, como forma de atrair motoristas e compensar o período ocioso que os caminhoneiros enfrentam na região”, disse Thiago Péra, coordenador geral do Grupo de Pesquisa e Extensão em Logística Agroindustrial da Esalq (Esalq-Log). Fernando Bastiani, pesquisador da Esalq-Log, calcula que, sozinho, esse quadro fez o valor do frete para o Arco Norte subir 5%.
Thiago Péra ressaltou que o preço alto do diesel também pode ser um desafio na entressafra, quando o custo de transporte poderá ser maior do que o habitual para esse período, quando o valor costuma cair. Segundo ele, um elemento que pode continuar elevando o custo do frete é a tabela de pisos mínimos para transporte rodoviário. A tabela prevê um gatilho automático de repasse ao frete a cada 5% de aumento do preço do diesel.
A alta do petróleo também pode impulsionar as cotações do óleo de soja, a principal matéria-prima para a produção de biodiesel no Brasil. “Sim, óleo de soja mais caro pode virar mais um fator de pressão sobre o custo, porque encarece o biodiesel”, diz Jerônimo Goergen, presidente da Associação dos Produtores de Biocombustíveis do Brasil (Aprobio). O dirigente ressalva que, na prática, o aumento do petróleo e da taxa de câmbio é que costuma ter impacto mais forte sobre o custo do frete.
Por Globo Rural.


















