Da tradição aprendida dentro de casa ao empreendedorismo, mulheres encontram no artesanato uma forma de preservar a cultura, gerar renda e transformar suas realidades
As mãos de Aliete Penno, de 62 anos, deslizam com precisão entre linhas e agulhas, sentada na área de casa, ela repete movimentos que aprendeu ainda criança, observando a tia transformar novelos de linha em tapetes e bolsas. Na época, o artesanato era apenas uma forma de passar o tempo ao lado da família, hoje, cada ponto carrega uma herança construída ao longo de gerações.
“Foi minha falecida tia quem me apresentou ao crochê. Eu ficava observando cada ponto, cada movimento das mãos dela, até começar a tentar fazer também. O crochê faz parte da minha vida desde criança, pois eu tinha 7 anos quando minha tia começou a me ensinar os primeiros pontos. Cresci com essa prática e fui aprendendo outras técnicas pelo caminho, algumas delas sozinha. Anos depois, quando minha primeira neta nasceu, decidi aprender a fazer sapatinho de crochê para dar a ela e foi aí que descobri uma nova paixão. Já são 11 anos produzindo e comercializando peças artesanais para bebês”, relembra a artesã.

Em Paraíso do Tocantins, Maria José cresceu em uma família onde o artesanato fazia parte da rotina. Filha de artesão, viu desde cedo o pai fazendo violas de buriti, transformar a madeira em cadeiras, e outros objetos, enquanto avós, tios e outros familiares mantinham viva a tradição do trabalho manual.
Durante muitos anos, trabalhou com papelaria artesanal, produzindo cartões, lembrancinhas e peças personalizadas, mas foi após um acidente que precisou reinventar a própria trajetória profissional.
“Quando sofri o acidente e fiquei impossibilitada de continuar trabalhando da mesma forma, comecei a procurar alternativas para me manter. Como venho de uma família de artesãos, o artesanato sempre esteve presente na minha vida. Foi então que decidi aprender o bordado com miçangas e transformar essa habilidade em uma nova oportunidade”, conta.
As histórias de Aliete e Maria José se repetem em diferentes regiões do Tocantins, em um estado marcado pela diversidade cultural e pelas riquezas do Cerrado.
Segundo dados do Sistema de Informações Cadastrais do Artesanato Brasileiro (Sicab), mais de 3 mil profissionais estão cadastrados no Tocantins. Em todo o Brasil, estima-se que haja cerca de 8,5 milhões de artesãos, sendo que 80% desse quantitativo são mulheres, incluindo artesãs individuais e representantes de entidades.
O setor também representa aproximadamente 3% do Produto Interno Bruto (PIB) e movimenta cerca de R$ 50 bilhões por ano. Apesar da relevância econômica e cultural, a realidade de muitos trabalhadores ainda é marcada por desafios relacionados à comercialização, acesso a mercados e valorização profissional.

Arte como forma de sustento e qualidade de vida
Para muitas mulheres, o artesanato representa mais do que uma atividade complementar, é uma alternativa para geração de renda, autonomia financeira e fortalecimento de pequenos negócios.
É nesse contexto que iniciativas coletivas ganham importância e entre elas está a Feira das Manas, que é realizada em Palmas e reúne mulheres empreendedoras de diferentes idades e segmentos. É nesse espaço que muitas artesãs encontraram uma oportunidade para divulgar seus produtos, ampliar a rede de contatos e alcançar novos clientes.
Marlene dos Santos Ferreira cresceu cercada pelo artesanato, filha de uma tecelã, conviveu desde cedo com o trabalho manual, mas foi apenas após a aposentadoria que decidiu transformar a costura em uma atividade mais presente em sua rotina. Há mais de 15 anos produz peças infantis e, há cinco, encontrou na Feira das Manas um espaço para divulgar seu trabalho e conquistar novos clientes.
“Quando entrei na feira, estava procurando uma oportunidade para mostrar minhas peças e encontrar caminhos para vender mais. O que encontrei foi muito mais do que isso, porque aqui, uma mulher apoia a outra. As manas divulgam meu trabalho, me indicam para clientes e comemoram minhas conquistas junto comigo. Esse apoio faz toda a diferença. Graças à feira, consigo complementar minha renda com a costura e alcançar pessoas que talvez nunca conhecessem o meu trabalho”, comenta.

Atualmente, a feira reúne 30 expositoras e reflete a diversidade do empreendedorismo feminino local. O público encontra desde tapetes e peças de crochê até produtos confeccionados com capim-dourado, itens de costura criativa, roupas, calçados e outras produções artesanais que carregam identidade e trabalho manual feminino.
Mais do que um espaço de comercialização, a iniciativa contribui para a construção de uma rede de apoio entre mulheres empreendedoras. Maria José também é uma das expositoras da Feira e divide a rotina entre a produção artesanal e a venda de bolos, doces e outros alimentos nas feiras da cidade. As duas atividades garantem a renda da família e representam muito mais do que uma fonte de sustento.
“Participar de um grupo formado por mulheres mudou a minha vida. Entre 2024 e 2025 perdi meus pais e passei por um dos momentos mais difíceis que já vivi. Foi nesse período que encontrei apoio nas outras artesãs, elas me acolheram, me incentivaram e me ajudaram a seguir em frente. O artesanato acabou se tornando uma terapia para mim e hoje, vivo do artesanato e das comidas que vendo nas feiras, mas levo comigo algo ainda mais importante: a força e a amizade dessas mulheres”, relata.

Já Maria Sueli, aos 63 anos, encontrou no artesanato uma nova atividade e uma fonte de renda. Há sete anos, ela trabalha com papelaria artesanal, produzindo cadernos, cadernetas e outros itens personalizados. Diferentemente de muitas artesãs que herdaram o ofício de gerações anteriores, Sueli aprendeu a técnica com a própria filha. Quando a jovem decidiu seguir outros caminhos profissionais, ela assumiu a produção e deu continuidade ao negócio da família.
“Nunca imaginei que aprenderia uma profissão nova depois dos 50 anos. Minha filha começou a trabalhar com papelaria artesanal e foi me ensinando. Quando ela decidiu seguir outros projetos, resolvi continuar. Hoje, cada caderno que produzo carrega um pouco dessa história que construímos juntas. O artesanato me trouxe independência, ocupação e a alegria de continuar criando todos os dias”, relata.

A analista do Sebrae Luciana Retes, explica que as redes de apoio entre mulheres empreendedoras vão muito além da troca de contatos e oportunidades de negócios. Segundo ela, esses espaços fortalecem a confiança, estimulam o aprendizado coletivo e criam um ambiente propício para a inovação.
“Quando mulheres empreendedoras se conectam, elas passam a compartilhar experiências, desafios e soluções. Essa troca gera confiança e fortalece todo o ecossistema empreendedor. Muitas vezes, uma indicação, uma conversa ou um conhecimento compartilhado pode abrir portas e ajudar outra mulher a superar obstáculos que ela enfrentaria sozinha”, afirma.
Para Luciana, esses grupos também funcionam como espaços de construção coletiva de ideias e oportunidades.
“A inovação nasce muito da escuta e da troca de experiências. Quando mulheres compartilham suas vivências, seus aprendizados e suas formas de enfrentar os desafios do dia a dia, novas ideias surgem naturalmente, e é nesse ambiente de colaboração que os negócios se fortalecem, ganham novas perspectivas e encontram caminhos para crescer”, pontua.
A especialista ressalta que o empreendedorismo feminino tem um impacto que ultrapassa os resultados individuais.
“Quando uma mulher fortalece o seu negócio, ela fortalece também a sua comunidade. As redes de apoio criam um ciclo positivo de desenvolvimento, em que conhecimento, oportunidades e crescimento são compartilhados entre todas. É um movimento econômico, mas também social, que transforma realidades”, conclui.
Dados do Sebrae apontam que o Brasil possui mais de 10 milhões de mulheres empreendedoras, número que cresceu 42% desde 2012. No Tocantins, mais de 76 mil empresas são lideradas por mulheres, o equivalente a 41,8% dos negócios do estado. Ao todo, 67.340 tocantinenses estão à frente de empreendimentos próprios.
Para Luciana Retes, o trabalho desenvolvido pelo Sebrae junto às mulheres empreendedoras vai além do fortalecimento dos pequenos negócios, e é por isso que o Sebrae investe na criação e no fortalecimento de redes de empreendedorismo feminino.
“O Sebrae acredita que, ao apoiar as mulheres empreendedoras e incentivar a construção dessas redes de colaboração, está contribuindo diretamente para o fortalecimento da economia local e para a transformação social. Quando uma mulher cresce, ela tende a impulsionar outras pessoas ao seu redor, e esse impacto coletivo gera benefícios para todo o território”, conclui a analista.
Saberes que atravessam gerações
Em diferentes regiões do Tocantins, o artesanato traduz modos de vida, histórias familiares e relações profundas com o território.
No Jalapão, o capim-dourado é transformado em bolsas, biojoias e utensílios que se tornaram símbolo da produção artesanal tocantinense. A técnica, transmitida entre gerações, tem origem em comunidades quilombolas e representa um dos exemplos mais conhecidos da união entre tradição e geração de renda.
Já no norte do estado, na região do Bico do Papagaio, o babaçu fornece matéria-prima para a produção de peças decorativas e utilitárias, enquanto o buriti é utilizado na confecção de diferentes produtos artesanais.
Em Natividade, a técnica da filigrana mantém viva uma tradição centenária, marcada pela produção de joias elaboradas com fios delicados de ouro. Em Porto Nacional, o trabalho com madeira segue presente em oficinas familiares, onde os conhecimentos são compartilhados entre pais, filhos e netos.
Mas o que une todas essas manifestações vai além da matéria-prima ou da técnica, é a transmissão do conhecimento entre gerações, pois em muitas dessas comunidades, o aprendizado não acontece em salas de aula, mas dentro de casa.

Esse é o caso de Elizane Ramalho, de 55 anos, que carrega uma relação com o artesanato que começou antes mesmo de entender o significado da palavra. Neta de indígena Xerente e integrante de uma família de artesãos, ela cresceu cercada por técnicas, materiais e conhecimentos transmitidos entre gerações.
Hoje, Elizane atua na produção de arte sacra, biojoias de capim-dourado e miniaturas inspiradas nas tradicionais casas de Taquaruçu. Além de artesã, é conselheira municipal de artesanato em Palmas e dedica parte do seu tempo à formação de novos artesãos, ministrando oficinas de joias em capim-dourado e atividades artísticas para crianças.

Para ela, compartilhar conhecimento é tão importante quanto produzir.
“O artesanato sempre foi passado de geração em geração dentro da minha família. Mas eu sempre me perguntava: e quem não nasceu em uma família de artesãos? Como essa pessoa vai aprender? Foi por isso que decidi ensinar tudo o que sei. Sempre que tive oportunidade, ofereci oficinas e compartilhei conhecimento, porque acredito que o artesanato só continua vivo quando mais pessoas aprendem e dão continuidade a essas técnicas”, explica.
Apesar da paixão pelo ofício, Elizane afirma que transformar arte em sustento ainda é um desafio para muitos profissionais do setor. “O artesanato tem um valor cultural enorme, mas nem sempre esse valor é reconhecido pelo mercado. Muitas pessoas ainda não entendem o tempo, a dedicação e o conhecimento envolvidos em uma peça feita à mão, por isso, viver exclusivamente da arte nem sempre é fácil. Entre os produtos que comercializo, o capim-dourado continua sendo o mais procurado, principalmente por turistas que buscam levar um pouco da identidade do Tocantins para casa”, afirma.
Segundo ela, iniciativas de apoio ao setor ajudam a ampliar a visibilidade dos produtos artesanais e aproximar os artesãos de novos mercados.
“As miniaturas das casas de Taquaruçu que produzo, por exemplo, fazem parte do catálogos de divulgação do Sebrae e chegam a pessoas que talvez nunca encontrassem meu trabalho de outra forma. Esse tipo de apoio é importante porque ajuda a mostrar que o artesanato não é apenas cultura, mas também uma atividade econômica que gera renda para muitas famílias”, enfatiza.
A transmissão de saberes é considerada uma das principais características do artesanato tocantinense, pois cada técnica preservada representa também a continuidade de uma memória coletiva construída ao longo das gerações.
Cultura que gera desenvolvimento
Entre povos indígenas e comunidades quilombolas, o artesanato ocupa um papel ainda mais abrangente. Mais do que uma atividade econômica, ele está relacionado à identidade cultural, à espiritualidade e à organização social desses grupos.
Povos como Karajá, Xerente e Krahô mantêm tradições ligadas à produção de cerâmica, cestaria e adornos. As bonecas Ritxoko, produzidas pelo povo Karajá, foram reconhecidas como patrimônio cultural brasileiro e representam cenas do cotidiano, elementos da natureza e aspectos da vida comunitária.
Ao mesmo tempo em que preservam tradições ancestrais, essas produções também integram a chamada economia criativa, setor que transforma conhecimento, cultura e identidade em oportunidades econômicas.
A analista do Sebrae Celina Soares, explica que a economia criativa reúne atividades econômicas que têm como principal matéria-prima o conhecimento, a criatividade e a identidade cultural.
“Quando falamos em economia criativa, estamos nos referindo a setores como artesanato, design, moda autoral, música, audiovisual, arquitetura, gastronomia e produção de conteúdo digital. São atividades que transformam conhecimento, talento e cultura em valor econômico. A grande relevância desse segmento está justamente na sua capacidade de gerar emprego e renda com baixo impacto ambiental, além de valorizar a diversidade cultural brasileira. Também é um setor que estimula o empreendedorismo, a inovação e o desenvolvimento de pequenos negócios, por isso tem recebido cada vez mais atenção e investimentos”, destaca.
A analista pontua ainda que o valor do artesanato está justamente na sua singularidade, diferentemente dos produtos industrializados, cada peça carrega referências culturais, histórias e processos de produção próprios.
Os desafios para crescer
Embora o setor apresente potencial econômico significativo, os desafios ainda são numerosos.
Para a analista Celina Soares, o fortalecimento dos negócios artesanais passa por uma combinação de capacitação, acesso a mercado e inovação.
“O Sebrae atua em diferentes frentes para apoiar os artesãos, oferecemos capacitações em gestão, marketing, vendas, inovação e gestão financeira, além de consultorias especializadas que ajudam a aprimorar os produtos e torná-los mais competitivos, sempre respeitando a identidade e a criatividade de cada artesão. Nosso objetivo não é mudar a essência do trabalho, mas contribuir para que ele encontre mais espaço no mercado”, explica.
A comercialização continua sendo um dos principais obstáculos enfrentados pelos artesãos, especialmente para aqueles que vivem em regiões mais afastadas dos grandes centros consumidores. Além disso, muitos profissionais ainda enfrentam dificuldades relacionadas à formalização, precificação e acesso a canais digitais de venda.
“Hoje, grande parte das vendas ocorre pelas redes sociais, aplicativos de mensagem e plataformas digitais. Por isso, também orientamos os artesãos sobre como utilizar essas ferramentas para divulgar seus produtos, alcançar novos públicos e ampliar as oportunidades de comercialização. Quando unimos capacitação, consultoria, acesso a mercado e transformação digital, contribuímos para tornar esses negócios mais sustentáveis e competitivos”, conclui a analista Celina Soares.
Entre memória e futuro
Nas mãos de Aliete, o crochê aprendido ainda na infância com a tia ganhou novos significados quando se transformou em sapatinhos para a neta. Para Maria José, o artesanato foi o caminho encontrado para recomeçar após um acidente e enfrentar um dos períodos mais difíceis da vida. Marlene encontrou na costura uma nova oportunidade após a aposentadoria, enquanto Maria Sueli deu continuidade a um ofício que aprendeu com a própria filha. Já Elizane transformou os conhecimentos herdados da família e da ancestralidade indígena em uma missão de ensinar e preservar saberes.
Embora suas trajetórias sejam diferentes, todas compartilham algo em comum: a certeza de que o artesanato vai muito além da produção de peças. Cada ponto, bordado, costura ou biojoia carrega histórias familiares, conhecimentos transmitidos entre gerações e uma relação profunda com a cultura local.
Em um cenário em que a economia criativa ganha cada vez mais espaço, o trabalho dessas mulheres mostra que tradição e empreendedorismo podem caminhar juntos. Mais do que fonte de renda, o artesanato se revela uma ferramenta de pertencimento, autonomia e desenvolvimento.
E enquanto novas peças continuam sendo criadas, seguem vivas também as histórias, os saberes e os laços que transformam o fazer manual em patrimônio cultural e oportunidade econômica para milhares de mulheres tocantinenses.



















