Iniciativa promove capacitação, geração de renda e autonomia econômica em um dos menores municípios do estado e conquista reconhecimento nacional
Marcilene, Dalva, Maria Aparecida e Auricélia. Nomes simples de quatro mulheres da zona rural de Cariri do Tocantins. Apesar de histórias e trajetórias diferentes, as moradoras do Assentamento P.A. Coimbra têm em comum muito mais do que a vizinhança. Elas tiveram suas rotinas e modo de vida transformados pelo empreendedorismo. Tudo começou quando decidiram participar de atividades do Elas Mais Fortes.
Da esquerda para a direita: Cida, Dalva, Marcilene e Auricélia, empreendedoras e moradoras do P.A. Coimbra. (Foto: Yuri Felipe Sousa).
Desenvolvido pela Secretaria da Mulher e Cidadania de Cariri do Tocantins, com apoio de instituições como Sebrae, Sistema Faet/Senar e Sindicato Rural de Gurupi, o projeto vem se consolidando como uma ferramenta de inclusão produtiva e fortalecimento feminino em um dos menores municípios do estado, com apenas 4.166 habitantes, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Do aprendizado à comercialização
Um dos braços do Elas Mais Fortes é o Semeando Sabores. Um conjunto de ações que buscam oferecer diversas capacitações voltadas à qualificação profissional e geração de renda por meio do incentivo à produção de alimentos artesanais.
Ao longo dos anos, as moradoras do assentamento tiveram acesso a cursos de panificação rural, produção de derivados do leite e da mandioca, fabricação de temperos e condimentos, informática, artesanato, produção de bonecas e operação de máquinas. Todas essas formações contribuíram para fortalecer seus negócios e ampliar as oportunidades de comercialização.
Produtos artesanais comercializados pelas integrantes do grupo Semeando Sabores durante a 51ª ExpoGurupi. (Foto: Yuri Felipe Sousa).
Os conhecimentos adquiridos passaram a se refletir na variedade de produtos comercializados pelo grupo, que inclui bolos, iogurte natural, caldos, salgados, quitandas, pamonhas e bebidas. A qualidade e a diversidade da produção abriram espaço para a participação em eventos importantes da região, como a Feira da Mulher Elas Mais Fortes, a Agrosoja 2025 e a 51ª Exposição Agropecuária de Gurupi (Expo Gurupi), ampliando a visibilidade do trabalho desenvolvido pelas empreendedoras do Assentamento P.A. Coimbra.
Marcilene Valverde, por exemplo, explica que o projeto ajudou a aproximar as famílias da comunidade e abriu novos caminhos para quem buscava uma fonte de renda.
“Nós praticamente não tínhamos contato com os vizinhos e foi por meio do projeto Elas mais fortes que passamos a nos conhecer melhor e trabalhar juntas. Muitas pessoas não saíam de casa e hoje participam das atividades, produzem e se sentem valorizadas”, recorda Marcilene.
Segundo Marcilene, um dos momentos mais importantes aconteceu quando a produção começou a se sustentar financeiramente.
“Quando percebemos que conseguimos manter o que fazíamos sem tirar dinheiro do próprio bolso e ainda ter lucro, foi um divisor de águas. Hoje participamos de eventos, vendemos para outras cidades e nossos produtos chegam a mais pessoas”, comemora.
Ela própria viu a atividade crescer. Atualmente, Marcilene se dedica a produção de alimentos defumados, como bacon, salame, costela e lombo, comercializados por encomenda em municípios como Araguaína.
A história de Dalva Barbosa é outra que demonstra os impactos da iniciativa. Ex-professora do ensino fundamental, ela conta emocionada que encontrou nas atividades uma forma de retomar o convívio social e recuperar a autoestima.
“O projeto me salvou de uma depressão. Voltei a conviver com as pessoas, a aprender coisas novas e a me sentir útil novamente. Hoje, participo das feiras, produzo e tenho orgulho de fazer parte desse grupo”.
Cida preparando uma massa de pastel para uma cliente durante a 51ª ExpoGurupi. (Foto: Yuri Felipe Sousa).
Para Maria Aparecida Valadão, conhecida na comunidade como Cida, a principal mudança foi a conquista de autonomia financeira.
“Quando a gente consegue ganhar o próprio dinheiro, mesmo que seja aos poucos, passa a ter mais segurança e independência. Hoje, consigo ajudar mais em casa e me sinto mais confiante para buscar novas oportunidades”, ressalta Cida.
Há também quem reconheça a importância do acesso ao conhecimento que as capacitações trouxeram para as mulheres do assentamento. A Auricélia Alves é uma das que destaca o poder da informação.
“O que eu mais gosto é que sempre tem algo novo para aprender. Já participei de cursos de produção de temperos, confecção de bonecas e várias outras capacitações. Cada curso acrescenta alguma coisa e faz a gente enxergar novas oportunidades”, observa Auricélia.
Projeto nasceu para ampliar oportunidades
A criação do Elas Mais Fortes ocorreu a partir da percepção de que muitas mulheres atendidas pela Secretaria Municipal da Mulher e Cidadania enfrentavam dificuldades relacionadas à autonomia financeira e ao acesso a oportunidades de geração de renda.
Atualmente, cerca de 200 mulheres participam diretamente da iniciativa. Segundo a coordenação do projeto, os impactos também alcançam familiares e pessoas próximas das participantes, ampliando a rede de conhecimento e oportunidades construída a partir das capacitações.
Segundo a secretária municipal da Mulher e Cidadania de Cariri do Tocantins, Katielle Rodrigues, a proposta foi criar um ambiente capaz de oferecer capacitação, acompanhamento e incentivo ao empreendedorismo.
“Percebemos que uma mulher fortalecida e empoderada consegue romper barreiras. Por isso, buscamos investir em capacitação, profissionalização e geração de renda para que elas possam conquistar independência financeira e ampliar suas oportunidades”, pontua a secretária.
Crescimento do empreendedorismo feminino
Infográfico gerado com Inteligência Artificial
O trabalho desenvolvido em Cariri acompanha uma tendência observada em todo o país. No Brasil, o empreendedorismo impulsiona mais de 47 milhões de pessoas, representando 33,4% da população adulta. No Tocantins, as mulheres têm conquistado cada vez mais espaço nesse cenário. Dados do Sebrae Tocantins apontam que 331 mil mulheres estão inseridas no mercado de trabalho e, desse total, cerca de 62 mil, o equivalente a 18,7%, comandam o próprio negócio.
A maior parte dessas empreendedoras, aproximadamente 78%, tem entre 25 e 59 anos, faixa etária que concentra boa parte da força produtiva do estado.
Da capacitação ao mercado
O Sebrae Tocantins está entre os parceiros da iniciativa e atua principalmente na formação empreendedora das participantes. Segundo Thiago Milhomem, analista do Sebrae, um dos diferenciais do projeto é justamente conectar a capacitação à comercialização dos produtos.
“O Sebrae trabalha a gestão e o empreendedorismo para que essas mulheres consigam enxergar seus produtos e serviços como oportunidades reais de geração de renda. O projeto não fica apenas na capacitação. Ele acompanha esse processo até o momento da comercialização”, explica o analista.
Além das orientações voltadas à gestão dos negócios, as participantes tiveram acesso a capacitações para fortalecer sua presença no meio digital.
“Fizemos capacitação de marketing digital para que elas divulgassem seus produtos por meio das redes sociais. Foi um trabalho importante para ampliar a visibilidade do que elas produzem”, complementa o analista.
O Sebrae também apoia o processo de rotulagem e legalização dos produtos, contribuindo para que as empreendedoras ampliem as oportunidades de comercialização e fortaleçam seus negócios. Esse trabalho foi desenvolvido em conjunto com outras instituições parceiras.
“O Senar e o Sindicato Rural de Gurupi entraram na parte técnica. Como produzir mandioca, como melhorar a produção de leite para fabricação dos doces, além de orientações relacionadas a outras atividades desenvolvidas pelas participantes. Foi um trabalho construído a várias mãos”, ressalta o representante do Sebrae.
De Cariri para o Brasil
Os resultados alcançados pelo projeto levaram Cariri do Tocantins ao cenário nacional. Em 2026, o município conquistou o primeiro lugar na etapa estadual do XIII Prêmio Sebrae Prefeitura Empreendedora e representou o Tocantins na etapa nacional da premiação, realizada em Brasília durante a programação da Marcha dos Prefeitos.
O projeto Elas Mais Fortes colocou o município entre as 27 melhores iniciativas do país, reconhecimento concedido a administrações públicas que desenvolvem ações voltadas ao fortalecimento do empreendedorismo, à inclusão produtiva e ao desenvolvimento socioeconômico.
Para Katielle Rodrigues, o prêmio reflete a dedicação e o trabalho das próprias participantes.
“Esse reconhecimento nacional representa a força das mulheres de Cariri e o impacto social que o projeto vem promovendo no município. O Elas Mais Fortes nasceu para incentivar a autonomia, autoestima e independência financeira, e hoje vemos esse trabalho ganhando visibilidade em todo o país”, celebra a secretária.
O caminho percorrido pelas integrantes do Semeando Sabores mostra que os resultados vão além das salas de capacitação. Entre cursos, feiras, exposições e oportunidades de comercialização, mulheres do Assentamento P.A. Coimbra passaram a ocupar espaços que antes pareciam distantes.
Da Feira da Mulher Elas Mais Fortes à Expo Gurupi, o percurso construído por Marcilene, Dalva, Cida e Auricélia demonstra como o acesso ao conhecimento, ao mercado e às oportunidades pode fortalecer a autonomia econômica, ampliar a geração de renda e incentivar o protagonismo feminino em um município de pouco mais de 4 mil habitantes.
Por Yuri Felipe Sousa.















