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Home Artigos

Por que o agro fala mal do agro?

por Yuri Felipe Sousa - Jornalista
em: 17/08/2026 08:57
Cat.: Artigos
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Projeto de agricultura urbana transforma lotes baldios em espaços sustentáveis em Porto Nacional

(Foto: Joeldino Gomes).

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Se continuarmos descrevendo o setor apenas a partir de suas dificuldades, dificilmente conquistaremos os investidores que hoje sustentam, e que poderão ampliar, o financiamento do agronegócio

O maior problema de comunicação do agronegócio brasileiro talvez seja este: o setor continua falando para Brasília, como se ainda dependesse do Tesouro Nacional, quando seu principal financiador hoje é, majoritariamente, o mercado privado.

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Ao longo de décadas, sobretudo entre 1965 e 1986, o setor rural brasileiro cresceu e sobreviveu apoiado em recursos e incentivos do governo federal. E, para isso, desenvolveu uma narrativa permanente de dificuldades, coerente com um modelo em que a manutenção das políticas públicas era essencial para sua expansão. O financiador mudou, mas a narrativa permaneceu. E estamos presos a um discurso ultrapassado, encurralados em um dilema de difícil saída.

As evidências sugerem que o agronegócio brasileiro aprendeu, ao longo de décadas, a falar com Brasília. As nossas lideranças e entidades sabem dialogar com o governo federal. Mas, de repente, a partir de 1986, Brasília perdeu o protagonismo e deixou de ser o principal financiador do setor. Ainda assim, continuamos a falar com quem hoje responde por menos de 4% da demanda anual de recursos para o crédito ao agronegócio, que demanda mais de R$ 1,2 trilhão por ano.

Existe hoje uma outra parcela relevante do funding ao agronegócio, decorrente de decisões do Conselho Monetário Nacional e organizada pelo Manual de Crédito Rural (MCR): o direcionamento dos recursos da poupança rural, das Letras de Crédito do Agronegócio (LCA) e dos depósitos à vista. Aqui existe a mão forte do governo federal, por meio da regulação. Mas não se trata de dinheiro público. São recursos privados cuja alocação é disciplinada por regras públicas. Essas decisões regulatórias garantem mais uns R$ 400 bilhões ao financiamento do agro, mas sem um real de dinheiro do Tesouro Nacional.

Para compreender como chegamos a esse desencontro entre a realidade do financiamento e a narrativa do setor, vale olhar para a história.

Ao longo dos mais de 500 anos do Brasil, quase todos os ciclos econômicos tiveram atividades rurais como protagonistas: pau-brasil, cana-de-açúcar, algodão, borracha e café. Somente a exploração do ouro, no século 18, e o processo de industrialização, entre 1930 e 1980, não tiveram o meio rural como protagonista.

Antônio Márcio Buainain, em recente ensaio, afirma que a evolução da agricultura brasileira entre 1950 e 2025 reforçou o papel do Estado brasileiro no desenvolvimento do agronegócio. Segundo Buainain, esse protagonismo estatal foi mais evidente entre meados dos anos 1960 e o início dos anos 1980. O Sistema Nacional de Crédito Rural, a política de preços mínimos, a criação da Embrapa e os serviços de extensão rural formaram os pilares de uma modernização planejada. Foi a mesma lógica política — não o mercado, não a técnica — que, após o início do governo militar de 1964, optou pela modernização conservadora em vez da reforma agrária e transformou a construção de Brasília e a ocupação do Cerrado e da Amazônia em projetos de Estado.

A partir dos anos 1990, contudo, consolidou-se, dentro do próprio agronegócio, uma narrativa de “triunfo apesar do Estado” — ou até contra ele. E essa narrativa é que apaga os pilares erguidos nas décadas anteriores: a política de preços mínimos que viabilizou a ocupação produtiva do Cerrado, o protecionismo que fortaleceu a agroindústria nacional e a renegociação das dívidas dos anos 1980, que devolveu ao produtor a capacidade de crédito.

A conta-movimento foi oficialmente extinta em 1986, como parte de um amplo reordenamento financeiro governamental que separou definitivamente as contas e as funções do Banco Central, do Banco do Brasil e do Tesouro Nacional — um dos marcos mais importantes da consolidação do Banco Central do Brasil (BCB) como autoridade monetária independente.

Esse marco não mudou apenas o Sistema Financeiro Nacional: alterou o financiamento do agronegócio brasileiro. Dados do Departamento de Política de Financiamento ao Setor Agropecuário/Mapa indicam que, entre 1966 e 1985, cerca de 80% dos recursos utilizados pelo setor provinham do Tesouro Nacional. Após 1986, essa participação despencou: hoje representa cerca de 4% da demanda anual de R$ 1,2 trilhão, considerando cerca de R$ 20 bilhões em subvenções e mais R$ 20 bilhões em isenções de Imposto de Renda nos CRAs, nas LCAs e nos Fiagros.

De acordo com dados da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), o produtor rural brasileiro recebe, via subsídio, cerca de um quarto da média observada entre os países da organização. Entre 2021 e 2023, do total da renda do nosso produtor brasileiro, apenas 3,3% da receita teve origem em subsídios. Nos Estados Unidos, esse percentual foi de 8,1%, enquanto a média da OCDE é de 13,7%. Esses dados jogam ao nosso favor. Podemos e devemos debater com a sociedade brasileira, que hoje, majoritariamente, acredita que o agro é um grande beneficiado pelo governo federal. Já foi. Não é mais.

A vitimização do produtor rural, a narrativa recorrente de uma crise estrutural inexistente e algumas decisões políticas têm um custo invisível: enquanto o agronegócio continua batendo à porta de Brasília, o verdadeiro financiador de longo prazo já mudou de endereço.

Existe hoje uma guerra pelos investimentos. As empresas de criptomoedas vão sempre dizer que investir em moedas digitais é o melhor negócio. Muitos influenciadores digitais, idem. A turma apaixonada por fundos imobiliários segue a mesma lógica.

Alguns números ilustram esse cenário: cerca de 15 milhões de brasileiros investem em criptomoedas, e menos de 3 milhões aplicam em títulos do agronegócio (LCA, CRA, CDCA, CPR) e Fiagros. A indústria de fundos de investimento administra cerca de R$ 11 trilhões sob custódia. Os Fiagros respondem por um pouco menos de 0,5%. Já os FIIs representam 4%, ou seja, oito vezes mais patrimônio líquido do que os Fiagros, embora o setor imobiliário represente um PIB equivalente a apenas um terço do agro.

Eis o nosso dilema: falamos para Brasília ouvir. E ouve. Mas quem financia o agronegócio brasileiro é o setor privado, seja por meio do sistema bancário ou do mercado de capitais, utilizando recursos oriundos, sobretudo, de pessoas físicas. Precisamos aprender a falar para o médico de Botucatu, para o motorista de Uber de Duque de Caxias, para os 3 milhões de brasileiros que já nos financiam — e, também, para os outros 57 milhões de investidores que ainda desconsideram o setor.

O Congresso Nacional, sob a liderança da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), tem papel central nos avanços legislativos e regulatórios do setor. Boa parte do arcabouço construído ao longo dos últimos 25 anos — LCA, CRA, CDCA, Fiagros, Leis do Agro 1 e 2, entre outros instrumentos — é resultado da atuação da FPA, inclusive no diálogo e na pressão institucional sobre o Conselho Monetário Nacional. Dificilmente teríamos alcançado cerca de R$ 500 bilhões em LCAs e R$ 50 bilhões em Fiagros sem essa articulação. E é justamente isso que torna o dilema mais complexo: Brasília continua tendo papel decisivo nos avanços legislativos e regulatórios, mas o Tesouro Nacional já não é o financiador do agronegócio. São papéis distintos, que não podem ser confundidos.

Se continuarmos descrevendo o setor apenas a partir de suas dificuldades, como aprendemos a fazer quando dependíamos das benesses do Estado, dificilmente conquistaremos os investidores que hoje sustentam — e que poderão ampliar — o financiamento do agronegócio.É nesse desencontro entre uma narrativa do passado e a realidade do presente que está, no fundo, a razão de o agro falar mal do próprio agro.

A historiadora Deirdre McCloskey, disse certa vez: “Por razões que nunca entendi, as pessoas gostam de ouvir que o mundo está indo de ladeira abaixo.” Na mesma linha, o investidor Morgan Housel, afirmou: “o pessimista soa mais esperto”.

Por Amanda Coura e Octaciano Neto, fundadores da ZeraAg.

Tags: AgronegócioArtigocomunicaçãoOpinião
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