A ovinocultura vive um momento de expansão no Brasil e, no Tocantins, esse movimento começa a ganhar uma nova dimensão. Um grupo formado por cerca de 30 produtores tem se organizado com o objetivo de reestruturar a cadeia produtiva no estado, profissionalizar a atividade e ampliar a presença da carne ovina no mercado.
Historicamente, a criação de ovinos no Tocantins esteve muito associada à subsistência, ao consumo dentro das propriedades e a pequenas comercializações. Agora, a proposta é avançar para um modelo mais estruturado, capaz de gerar renda, estimular investimentos e atrair produtores que já têm interesse na atividade, mas ainda não deram o passo em direção à produção profissional.
Quando conduzida com planejamento, manejo adequado e objetivos bem definidos, a ovinocultura pode se tornar uma alternativa interessante de diversificação da propriedade rural. A busca por melhores índices zootécnicos, eficiência alimentar, ganho de peso e padronização dos animais é fundamental para transformar a criação em uma atividade economicamente sustentável.
Esse movimento encontra espaço também pelo lado da demanda. O consumo de carne ovina possui potencial de crescimento, enquanto a oferta regular do produto ainda é limitada em mercados e açougues. A expectativa do grupo é que esse cenário comece a mudar nos próximos meses, com a chegada ao mercado tocantinense dos primeiros lotes de animais terminados dentro dessa nova estratégia produtiva.
Mais produtores e aumento do rebanho
Uma das metas dessa nova fase é ampliar o número de produtores envolvidos e, consequentemente, fortalecer o rebanho ovino do Tocantins, hoje estimado em cerca de 80 mil cabeças, segundo dados da Agência de Defesa Agropecuária do Tocantins (Adapec).
Uma das vantagens da atividade é a possibilidade de implantação em áreas menores. Isso permite que a criação de ovinos seja desenvolvida de forma complementar à agricultura ou à pecuária bovina, criando uma nova fonte de receita sem necessariamente substituir a atividade principal da propriedade.
Tenho colocado essa possibilidade em prática em minha própria propriedade, onde está sendo implantado um núcleo de produção em uma área de apenas quatro hectares. O projeto prevê uma estrutura de confinamento com capacidade para 300 cordeiros, envolvendo tanto animais próprios quanto cordeiros de outros produtores.
A proposta inclui o modelo chamado de “ovinotel”, no qual o criador pode encaminhar seus animais para a estrutura de terminação e pagar uma diária pelo período de engorda. Dessa forma, produtores que não dispõem de instalações próprias de confinamento podem acessar uma estrutura especializada e conduzir seus cordeiros até o peso de abate, estimado em torno de 40 quilos.
Esse formato pode contribuir para aumentar a eficiência da terminação, reduzir a necessidade de investimentos individuais em infraestrutura e, ao mesmo tempo, favorecer uma oferta mais regular de animais padronizados ao mercado.
Genética como parte da profissionalização
O fortalecimento da cadeia também passa pelo melhoramento genético. Produtores tocantinenses vêm investindo em raças como Santa Inês, Dorper e Suffolk, buscando animais com características capazes de aumentar o desempenho produtivo dos rebanhos.
Entre os criadores envolvidos nesse movimento está Carmélio Alcântara, um dos produtores tradicionais de Santa Inês no Tocantins, que desenvolve há anos um trabalho de seleção e melhoramento genético. A participação desses núcleos especializados é importante para ampliar o acesso dos demais produtores a animais de qualidade e acelerar a evolução dos rebanhos.
A raça Suffolk também começa a ganhar espaço. O produtor Renato Schneider Junior, por exemplo, vem trazendo animais do Sudeste com o objetivo de incorporar ao estado genética voltada à produção e contribuir para a formação de novos plantéis.
Essa disponibilidade de genética dentro do próprio Tocantins tende a ser estratégica para quem já está na atividade e para os produtores que pretendem começar. Melhor desempenho dos cordeiros, maior velocidade de ganho de peso e melhor aproveitamento produtivo são fatores que podem refletir diretamente na rentabilidade.
Uma cadeia que precisa crescer de forma organizada
O desafio agora é transformar iniciativas individuais em uma cadeia cada vez mais organizada. Isso passa pela integração entre criadores, núcleos de genética, estruturas de terminação, abate, distribuição e mercado consumidor.
O Tocantins possui condições para avançar nessa atividade. Há produtores interessados, genética disponível, possibilidade de produção em diferentes escalas e um mercado que ainda apresenta espaço para crescimento.
A profissionalização da ovinocultura não acontecerá de uma hora para outra. Mas a união dos produtores, a adoção de tecnologia e a construção de uma oferta constante e de qualidade podem abrir um novo capítulo para a atividade no estado.
Mais do que aumentar o número de animais, o momento é de construir uma cadeia produtiva capaz de gerar renda, oportunidades e segurança para quem decide investir na criação de ovinos.
Por Fernando Penteado, gestor do Núcleo MATOPIBA e administrador de empresas formado pelas Faculdades Metropolitanas Unidas (FMU). Possui mais de 25 anos de atuação no agronegócio brasileiro, com experiência em produção, comercialização, logística, mercado financeiro, gestão estratégica, estruturação de cadeias produtivas, certificações, armazenagem e articulação institucional. Também atua em projetos ligados às cadeias produtivas do MATOPIBA e da Região Norte.















