Programas convergem em infraestrutura, seguro rural, tecnologia e fertilizantes, mas apresentam diferenças na agricultura familiar, política fundiária, segurança jurídica e papel do Estado no setor
O agronegócio chega ao segundo turno da eleição presidencial de 2026 com peso relevante na economia brasileira. O Valor Bruto da Produção Agropecuária (VBP) é projetado em cerca de R$ 1,4 trilhão, enquanto as exportações do setor alcançaram US$ 87 bilhões apenas no primeiro semestre deste ano.
Nesse cenário, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) apresentam propostas que convergem em temas como infraestrutura, seguro rural, irrigação, conectividade, tecnologia, biocombustíveis e produção nacional de fertilizantes, mas diferem nas prioridades e nos instrumentos escolhidos para desenvolver o setor, conforme levantamento da CNN Brasil.
Enquanto Lula dedica maior espaço à agricultura familiar, compras públicas, reforma agrária, sustentabilidade e políticas de crédito direcionado, Flávio Bolsonaro concentra parte relevante de sua agenda na segurança jurídica da propriedade, regularização fundiária, redução de entraves burocráticos, armazenagem e segurança no campo.
As diferenças, porém, não significam que um programa esteja voltado exclusivamente ao pequeno produtor e o outro ao agronegócio empresarial. Ambos apresentam medidas capazes de alcançar produtores de diferentes portes. O que muda é a prioridade dada a cada tema e o papel reservado ao Estado e à iniciativa privada.
Lula: agricultura familiar, crédito e compras públicas
No programa de Lula, a agricultura familiar ocupa posição de destaque. Entre as propostas estão a ampliação do Plano Safra voltado ao segmento, condições diferenciadas para a produção de alimentos da cesta básica, agroecologia e produtos orgânicos, além de linhas direcionadas a jovens e mulheres rurais.
Nos últimos quatro ciclos agrícolas, o orçamento anunciado para o Plano Safra da Agricultura Familiar passou de R$ 71,6 bilhões na safra 2023/24 para R$ 97,3 bilhões em 2026/27, expansão acumulada de 35,9%. Dentro desse total, os recursos destinados ao Pronaf para custeio e investimento avançaram de R$ 78,2 bilhõespara R$ 85,2 bilhões no período, conforme dados reunidos pela Forbes Brasil.
O programa também prevê ampliar instrumentos de comercialização e compras públicas, como o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE).
Nesse campo, a participação mínima da agricultura familiar nas compras do PNAE foi elevada de 30% para 45%, medida que direciona cerca de R$ 3 bilhões anuais da alimentação escolar para esse segmento. O PAA, por sua vez, recebeu aporte de aproximadamente R$ 1 bilhão para aquisição de alimentos destinados à rede assistencial.
Também aparece no programa a retomada e ampliação de linhas do Mais Alimentos, voltadas à aquisição de tratores, máquinas e equipamentos adaptados às pequenas propriedades.
Reforma agrária e política fundiária
Na política fundiária, Lula propõe avançar na reforma agrária, estruturar assentamentos, ampliar o crédito fundiário e promover regularização de áreas rurais. Para o agronegócio empresarial, o programa também prevê ampliação de recursos para o Plano Safra, financiamento de máquinas e irrigação, uso de tecnologias para elevar produtividade e maior participação de instrumentos privados e do mercado de capitais no financiamento do setor.
A proposta inclui ainda a transformação do Plano Safra em um modelo de horizonte mais longo, além da modernização do seguro rural para enfrentar perdas associadas a eventos climáticos.
Sustentabilidade, pastagens e bioinsumos
Outro eixo do programa de Lula é a expansão da produção por meio da recuperação de áreas já abertas. A proposta prevê estímulos à Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF) e à recuperação de pastagens degradadas, buscando ampliar a produção sem avanço sobre novas áreas de vegetação nativa.
O Brasil possui cerca de 19,5 milhões de hectares sob sistemas de ILPF e aproximadamente 43 milhões de hectares de pastagens de alta aptidão agrícola com algum grau de degradação, segundo os dados citados pela Forbes Brasil. O Programa Nacional de Conversão de Pastagens Degradadas estabelece como objetivo incorporar até 40 milhões de hectares à produção sustentável entre 2023 e 2033.
Estimativas indicam necessidade de investimentos entre US$ 80 bilhões e US$ 120 bilhões, ou cerca de R$ 400 bilhões a R$ 600 bilhões, para correção de solo, adubação e infraestrutura ao longo da execução do programa.
O programa também aposta nos bioinsumos, mercado estimado em aproximadamente R$ 5 bilhões por ano e com crescimento superior a 20% anuais, além de medidas de rastreabilidade da produção pecuária e fortalecimento da Embrapa, segundo a Forbes Brasil.
Na matriz energética, aparecem biodiesel, etanol de milho e cana e combustível sustentável de aviação.
Flávio Bolsonaro: propriedade, titulação e segurança jurídica
No programa de Flávio Bolsonaro, a segurança jurídica da propriedade rural aparece como um dos principais eixos.
Entre as medidas estão aceleração da regularização fundiária, ampliação da emissão de títulos definitivos e combate a invasões de propriedades rurais. A proposta prevê que pequenos produtores com a propriedade regularizada possam utilizar o título como patrimônio e também como instrumento para acesso a crédito. A Gazeta do Povo também destaca a titulação e a regularização como pilares do programa.
Segundo dados citados pela Forbes Brasil com base em informações do Ministério do Desenvolvimento Agrário e do Incra, entre 67 milhões e 69 milhões de hectares de terras públicas federais e estaduais permanecem sem destinação oficial no país.
O programa também prevê consolidar o Cadastro Ambiental Rural (CAR) como ferramenta de conservação e restauração ambiental, conforme levantamento da CNN Brasil.
Licenciamento e redução da burocracia
Outra proposta é estabelecer prazos para análise de licenças ambientais e outorgas de água destinadas à irrigação.
Segundo a formulação apresentada no programa e detalhada pela Forbes Brasil, caso o órgão público ultrapasse o prazo estabelecido sem análise do pedido, haveria concessão tácita da autorização. A justificativa apresentada é evitar que atrasos administrativos impeçam ou retardem investimentos produtivos.
O programa, portanto, associa expansão produtiva à redução de entraves regulatórios e à maior previsibilidade para produtores e investidores.
Armazenagem e logística
A infraestrutura também ocupa espaço central na proposta de Flávio Bolsonaro.
A capacidade estática de armazenamento no Brasil alcança cerca de 233,8 milhões de toneladas, enquanto as safras recentes superam 340 milhões de toneladas, criando um déficit estimado entre 110 milhões e 130 milhões de toneladas, segundo os números citados pela Forbes Brasil. Apenas cerca de 15% a 16% da capacidade de armazenagem está dentro das propriedades rurais.
A proposta busca ampliar essa estrutura, reduzir perdas e diminuir a pressão pela venda imediata da produção durante os picos de colheita.
Flávio também propõe reduzir custos de transporte, ampliar irrigação e seguro rural e aumentar os investimentos em conectividade e na Embrapa, segundo a CNN Brasil.
Fertilizantes e segurança no campo
Na área de insumos, Flávio Bolsonaro defende maior exploração das reservas brasileiras de potássio e fosfato e expansão da produção doméstica de fertilizantes, com objetivo de reduzir a dependência das importações. A mesma diretriz também aparece no levantamento da Gazeta do Povo.
A segurança rural aparece relacionada ao combate a invasões, roubo de safras, máquinas e outros crimes no campo. O programa também prevê ampliação do seguro rural e mecanismos de reorganização e securitização de dívidas de produtores.
Onde os dois programas se aproximam
Apesar das diferenças, Lula e Flávio Bolsonaro compartilham diagnósticos semelhantes sobre alguns dos principais gargalos do setor.
Ambos defendem:
- expansão da infraestrutura de transporte e escoamento;
- aumento da capacidade de armazenagem;
- ampliação do seguro rural;
- investimentos em irrigação;
- conectividade no campo;
- pesquisa e inovação;
- fortalecimento da produção nacional de fertilizantes;
- expansão dos biocombustíveis;
- redução de riscos para o produtor.
Esses pontos de convergência também aparecem nos levantamentos da CNN Brasil.
A diferença aparece principalmente na forma como essas políticas seriam executadas.
Lula trabalha com maior presença de políticas públicas, crédito direcionado, instrumentos de compra governamental e ações específicas para agricultura familiar e reforma agrária.
Flávio Bolsonaro enfatiza regularização da propriedade, segurança jurídica, desburocratização e maior participação de investimentos privados.
E o que isso representa para o Tocantins?
No Tocantins, a comparação ganha importância por características próprias do setor agropecuário estadual.
O Estado combina expansão da produção de grãos, pecuária, agricultura familiar e chegada de novos investimentos a uma agenda ambiental cada vez mais presente. Por integrar o Matopiba e estar inserido majoritariamente no Cerrado, o Tocantins também enfrenta o desafio de ampliar produção e produtividade em paralelo às exigências ambientais e comerciais.
Nesse contexto, propostas de recuperação de pastagens degradadas, ILPF, bioinsumos, rastreabilidade e produção de baixo carbono presentes no programa de Lula dialogam com a possibilidade de expansão produtiva sobre áreas já abertas e com exigências crescentes dos mercados compradores.
Já propostas de Flávio Bolsonaro relacionadas a titulação, regularização fundiária, CAR, licenciamento, irrigação e segurança jurídica dialogam com um Estado que ainda recebe produtores e investimentos de outras regiões e onde a regularidade documental e ambiental é determinante para novos projetos.
Na agricultura familiar, Lula apresenta instrumentos mais específicos de crédito, compras públicas, mecanização e comercialização. Flávio concentra suas medidas para pequenos produtores principalmente em regularização, titulação, acesso patrimonial ao crédito e redução de entraves.
Para o produtor, a comparação vai além de identificar quais propostas existem. Também envolve entender quem será diretamente alcançado por cada política, como os programas pretendem financiá-las e quais instrumentos seriam usados para transformar as promessas em ações concretas.
No Tocantins, onde agricultura empresarial, pecuária, agricultura familiar e expansão de novas fronteiras produtivas convivem no mesmo território, essas diferenças podem produzir efeitos distintos sobre quem planta, cria, investe e vive do campo.















