Processo desenvolvido pela Embrapa e pela Efense alcançou até 2,8 bilhões de unidades de fungos por mililitro e apresentou eficiência contra mosca-branca e lagarta-do-cartucho
Uma nova tecnologia desenvolvida por pesquisadores da Embrapa, em parceria com a empresa Efense, pode ampliar a produção industrial de bioinseticidas utilizados no controle de pragas agrícolas. O processo permite multiplicar, em larga escala, fungos capazes de combater insetos como a mosca-branca e a lagarta-do-cartucho, duas pragas de importância para culturas como a soja e o milho.
A pesquisa conseguiu levar a produção dos chamados blastosporos, células de fungos que infectam insetos, do laboratório para biorreatores industriais de 1.200 litros, mantendo elevados níveis de produtividade.
Nos testes, foram obtidas entre 1,8 bilhão e 2,8 bilhões de unidades formadoras de colônia por mililitro em períodos de dois a quatro dias de fermentação. Em determinadas condições, a produção ultrapassou um bilhão de blastosporos por mililitro em apenas dois dias.
O avanço é considerado importante porque a produção em grande escala e a conservação dessas células durante o armazenamento estavam entre os principais obstáculos para transformar a tecnologia em produtos comerciais.
“Foi demonstrado que é possível produzir mais de um bilhão de blastosporos por mililitro em apenas dois dias de fermentação, mantendo a qualidade biológica necessária para uso agrícola”, explica Aline Lira, que participou do projeto durante o doutorado na Esalq-USP.
Produção mais rápida e possibilidade de redução de custos
Diferentemente dos conídios, tradicionalmente produzidos por fermentação sólida, os blastosporos podem ser multiplicados por fermentação líquida. O método facilita a automatização e permite maior controle sobre o processo produtivo.
Segundo o pesquisador Gabriel Mascarin, da Embrapa Meio Ambiente, foram selecionadas fontes de carbono e nitrogênio mais adequadas para o crescimento dos fungos e realizados testes progressivos em diferentes volumes.
Após os experimentos laboratoriais, a produção passou para biorreatores de sete litros e, posteriormente, para equipamentos industriais de 1.200 litros.
“Mesmo em larga escala, os rendimentos de produção se mantiveram elevados”, afirma Mascarin.
Outro resultado está relacionado à conservação do produto. Os blastosporos apresentam sensibilidade à desidratação e às condições ambientais, característica que historicamente dificultou sua utilização comercial.
Para contornar o problema, os pesquisadores testaram formulações com óleo vegetal e sílica amorfa. As combinações conseguiram preservar a viabilidade dos fungos por até 90 dias sob refrigeração, sem necessidade de uma etapa prévia de secagem por convecção.
A retirada dessa etapa pode simplificar o processo industrial e contribuir para reduzir os custos de fabricação dos bioinseticidas.
Mortalidade de pragas chegou a 93%
Além da produção industrial, a pesquisa avaliou a capacidade dos bioinseticidas de controlar pragas.
Em experimentos realizados em laboratório e casa de vegetação, as formulações apresentaram mortalidade entre 70% e 93% de lagartas-do-cartucho (Spodoptera frugiperda) e ninfas de mosca-branca (Bemisia tabaci biótipo B), quando utilizadas na concentração de 10 milhões de blastosporos por mililitro.
De acordo com Jeanne Marinho-Prado, pesquisadora da Embrapa Meio Ambiente, os fungos conseguiram aderir rapidamente aos insetos, germinar e iniciar o processo de infecção poucas horas depois da aplicação.
Os resultados também foram avaliados no campo. Durante duas safras consecutivas de soja, 2022/2023 e 2023/2024, aplicações dos bioinseticidas reduziram significativamente as populações de mosca-branca nas áreas experimentais.
Os testes incluíram comparações com produtos biológicos já registrados no Brasil. Segundo Marcus Santana, da Efense, os resultados indicam potencial para que as novas formulações sejam incorporadas aos programas de Manejo Integrado de Pragas (MIP).
Tecnologia pode ampliar mercado de bioinsumos
O desenvolvimento reúne mais de uma década de pesquisas sobre a produção de blastosporos de fungos patogênicos para insetos. O processo contempla desde a fermentação e o escalonamento industrial até a formulação, armazenamento e testes de eficiência no campo.
A tecnologia também está relacionada a uma patente desenvolvida pelos pesquisadores Gabriel Moura Mascarin e Mark Alan Jackson.
Com a viabilidade da produção em equipamentos industriais demonstrada, a expectativa dos pesquisadores é que o processo facilite o desenvolvimento de novos produtos comerciais e amplie as alternativas biológicas disponíveis para o controle de pragas.
Além da possibilidade de reduzir o uso de inseticidas químicos em determinadas estratégias de manejo, a tecnologia pode contribuir para o avanço da indústria brasileira de bioinsumos, especialmente diante do crescimento da procura por ferramentas biológicas para a produção agrícola.

















