Com safra estimada em 360,1 milhões de toneladas e capacidade estática de 228 milhões, especialistas defendem mais investimentos em armazéns para reduzir perdas e custos ao produtor.
O avanço da produção de grãos no Brasil continua superando a expansão da infraestrutura de armazenagem, um cenário que mantém antigos gargalos logísticos e aumenta os desafios para produtores rurais. Enquanto a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) projeta uma safra de 360,1 milhões de toneladas no ciclo 2025/26, a capacidade estática de armazenamento do país é de 228 milhões de toneladas, segundo dados do Portal Armazéns do Brasil.
Embora os números indiquem uma diferença superior a 130 milhões de toneladas, especialistas explicam que essa conta não representa, necessariamente, falta de espaço para toda a produção. Isso porque o calendário agrícola brasileiro permite mais de uma safra por ano em diversas regiões, possibilitando a rotatividade dos estoques ao longo do ciclo produtivo.
Para a técnica da Conab e vice-presidente da Associação Brasileira de Pós-Colheita (Abrapos), Denise Deckers, o principal problema não está no volume nacional de armazenagem, mas na distribuição da infraestrutura.
“O Brasil tem capacidade para receber a produção porque trabalha com diferentes safras ao longo do ano. O desafio está na concentração dos armazéns. Existem regiões produtoras onde ainda é comum encontrar grãos armazenados a céu aberto pela falta de estruturas adequadas”, afirma.
Segundo ela, áreas agrícolas em forte expansão, como regiões do Mato Grosso e do oeste da Bahia, convivem com déficit de unidades armazenadoras, obrigando produtores a transportar a produção por longas distâncias ou recorrer a soluções provisórias durante a colheita.
Déficit acompanha crescimento da produção
A especialista destaca que o descompasso entre o crescimento da produção agrícola e os investimentos em armazenagem não é recente.
Desde a década de 1990, a evolução da produtividade das lavouras, impulsionada pelo melhoramento genético e pelo avanço das tecnologias de manejo, ocorreu em ritmo superior ao da construção de novos armazéns.
“Temos aumentado a capacidade de produzir, mas ainda existe resistência em investir na construção de unidades armazenadoras”, observa.
Para Deckers, ampliar as linhas de financiamento destinadas à armazenagem seria uma das principais estratégias para reduzir esse gargalo. A proposta é criar mecanismos semelhantes ao crédito rural, permitindo que cerealistas, cooperativas e outros agentes da cadeia tenham maior acesso a recursos para construir ou modernizar estruturas de estocagem.
Reflexos para o Tocantins
A discussão também ganha importância no Tocantins, um dos estados que mais ampliaram a produção de grãos nas últimas décadas e integra a região do MATOPIBA, considerada a principal fronteira agrícola do país.
Com o crescimento da produção de soja, milho e sorgo, a expansão da capacidade de armazenagem passou a ser apontada pelo setor como um dos fatores necessários para reduzir custos logísticos, evitar perdas pós-colheita e ampliar o poder de negociação dos produtores, que deixam de depender da venda imediata da safra.
Além de diminuir despesas com transporte durante o pico da colheita, a armazenagem dentro das propriedades ou em estruturas próximas às áreas produtoras permite maior flexibilidade para comercializar os grãos em momentos mais favoráveis do mercado.
Debate sobre infraestrutura
O tema será um dos destaques da 9ª Conferência Brasileira de Pós-Colheita, que acontece entre os dias 12 e 14 de agosto, em Carambeí (PR). A abertura do evento contará com uma palestra de Denise Deckers sobre os desafios da armazenagem de grãos no Brasil. A conferência é promovida pela Abrapos em parceria com as cooperativas Capal, Frísia e Castrolanda.
















