Presidente do Banco Central afirma que expectativas de inflação ainda exigem política monetária restritiva, enquanto secretário-executivo da Fazenda defende programas para reduzir o custo do crédito
A política monetária, o controle da inflação e o acesso ao crédito para empresas estiveram entre os principais temas debatidos durante os painéis: “Política Monetária no Brasil” e “Os rumos da economia brasileira”, realizado nesta sexta-feira (24), na Expert XP 2026. O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, e o secretário-executivo do Ministério da Fazenda, Dario Durigan, defenderam a manutenção da estabilidade econômica e apresentaram as estratégias adotadas pelo governo e pela autoridade monetária para enfrentar os desafios do cenário atual.
Galípolo afirmou que, apesar do aperto monetário promovido nos últimos meses, as expectativas de inflação permanecem acima da meta, o que justifica a manutenção da taxa básica de juros em nível restritivo por mais tempo.
“Mesmo após a revisão da Selic para um patamar mais contracionista, as expectativas continuaram se afastando da meta. Isso recomenda manter os juros em nível restritivo por um período mais prolongado.”
Segundo o presidente do Banco Central, a instituição acompanha um conjunto amplo de indicadores antes de tomar decisões e busca agir com cautela, evitando mudanças baseadas em dados pontuais.
Inteligência artificial entra no radar da economia
Durante o debate, Galípolo também destacou a inteligência artificial como um dos fatores estruturais capazes de influenciar a economia mundial nos próximos anos.
Na avaliação do presidente do Banco Central, ainda há incertezas sobre os efeitos da tecnologia. Enquanto parte do mercado acredita que a IA pode elevar custos ao aumentar investimentos e o consumo de energia, outra corrente aponta que os ganhos de produtividade tendem a compensar esses impactos, contribuindo para um ambiente menos inflacionário.
Ele também avaliou que o Brasil se encontra em posição relativamente confortável diante do cenário internacional por ser exportador líquido de energia e manter condições favoráveis nos termos de troca.
Endividamento exige mudanças estruturais
Ao abordar o mercado de crédito, Galípolo afirmou que o principal desafio está no elevado endividamento das famílias, especialmente nas modalidades sem garantia, como o cartão de crédito.
Segundo ele, a expansão do uso do cartão após a pandemia ocorreu em diversos países, mas foi intensificada no Brasil pela inclusão financeira de milhões de pessoas e pela ampliação da oferta de crédito.
Na avaliação do presidente do Banco Central, trata-se de um problema estrutural que demanda modernização do sistema financeiro, mais do que medidas pontuais de política monetária.
Governo aposta em crédito mais barato
Na sequência do painel, Dario Durigan apresentou as ações do governo federal para reduzir o custo do crédito, principalmente para micro e pequenas empresas.
Segundo ele, além da renegociação de dívidas promovida pelo Desenrola Brasil, o governo ampliou programas como o Pronampe e o ProCred 360, buscando substituir operações com juros elevados por linhas de financiamento mais acessíveis.
“É troca de dívida cara por dívida barata. Por isso, no Desenrola, nós não fazemos apenas a renegociação, que é uma medida pontual. Também criamos condições mais estruturais.”
Como exemplo, Durigan explicou que o limite anterior de R$ 250 mil do ProCred 360 fazia com que muitos empresários recorressem ao cartão de crédito ou ao Crédito Direto ao Consumidor (CDC) para complementar o financiamento, assumindo custos financeiros mais elevados.
Segundo o secretário-executivo da Fazenda, com a ampliação do limite da linha, entre 70% e 80% dessas operações poderão migrar para financiamentos com juros próximos à taxa Selic acrescida de 5% ao ano, reduzindo o custo do crédito para os pequenos negócios.
Política monetária e crédito caminham juntos
Embora tenham abordado temas distintos, Galípolo e Durigan defenderam que a estabilidade econômica depende da combinação entre uma política monetária responsável e mecanismos capazes de ampliar o acesso ao crédito em condições mais favoráveis.
Enquanto o Banco Central mantém o foco no controle da inflação e na ancoragem das expectativas, o Ministério da Fazenda aposta na expansão de programas de crédito para reduzir o endividamento de famílias e empresas e estimular a atividade econômica.















