Levantamento mostra que a permanência de animais sem produzir bezerros no ciclo mantém despesas com alimentação, manejo e mão de obra e pode comprometer o resultado da propriedade
A permanência de fêmeas que não emprenharam no rebanho pode representar um custo que nem sempre aparece de forma evidente na gestão da fazenda. Mesmo sem produzir um bezerro naquele ciclo, esses animais continuam ocupando área e demandando alimentação, mão de obra e manejo, pressionando os custos da pecuária de cria.
O alerta faz parte do informativo de custos de bovinos de setembro de 2026, elaborado pelo Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea/Esalq-USP) em parceria com a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), a partir dos levantamentos do Projeto Campo Futuro. O estudo classifica essas despesas como parte dos chamados “gastos invisíveis” da atividade.
A análise considerou 53 propriedades típicas de cria e identificou níveis elevados de retenção dessas fêmeas. Em 32% das propriedades avaliadas, cerca de metade dos animais que não emprenharam permaneceu no sistema. Outros 42% dos estabelecimentos mantiveram mais de 60% dessas fêmeas para o ano seguinte.
Segundo o levantamento, quanto maior o número de animais improdutivos mantidos no sistema, maior tende a ser a pressão sobre o Custo Operacional Total (COT), tanto por hectare quanto por quilo de bezerro desmamado.
Custos aumentam conforme cresce a retenção
Os dados apresentados pelo Projeto Campo Futuro ajudam a dimensionar essa diferença. Nas propriedades que retiveram até 10% das fêmeas que não emprenharam, o COT observado foi de R$ 307 por hectare e R$ 3,82 por quilo de bezerro desmamado.
Na faixa em que a retenção ficou entre 40% e 60%, o custo chegou a R$ 847 por hectare e R$ 10,37 por quilo de bezerro desmamado. Já entre as propriedades que mantiveram mais de 60% desses animais, os valores observados foram de R$ 774 por hectare e R$ 8,96 por quilo.
O impacto também aparece nos indicadores de resultado econômico apresentados pelo estudo. Propriedades com retenção de até 10% registraram margem líquida média de R$ 959,19 por hectare, acompanhada de taxa de desmame de 76%.
Entre aquelas que mantiveram mais de 60% das fêmeas que não emprenharam, a margem líquida observada foi de R$ 528,27 por hectare, com taxa de desmame de 62%.
Os números representam os resultados observados nos grupos de propriedades analisados pelo Projeto Campo Futuro e não significam que a retenção das fêmeas seja, isoladamente, responsável por toda a diferença entre os indicadores.
Estudo estima custo médio de R$ 385 por animal
Dentro dos parâmetros utilizados pelo levantamento, o Projeto Campo Futuro estimou em R$ 385 por animal ao ano a média do custo de manutenção de uma fêmea que permanece sem produzir bezerro naquele ciclo. O cálculo considera gastos anuais e taxas de depreciação.
Desse valor, a alimentação representa, em média, 55% dos gastos considerados pelo estudo. Isso corresponde a aproximadamente R$ 17,50 por cabeça ao mês somente com alimentação.
O valor de R$ 385 deve ser entendido, portanto, como uma média estimada a partir dos dados coletados pelo Projeto Campo Futuro e dos componentes considerados no levantamento, e não como um custo fixo aplicável a todas as propriedades.
O próprio Cepea destaca que dificilmente um sistema de cria consegue alcançar 100% de fêmeas prenhes em um ano. Por isso, a questão econômica não está apenas na ocorrência de animais que não emprenharam, mas principalmente na decisão tomada depois da identificação dessas fêmeas.
O produtor pode optar pela permanência do animal no rebanho, assumindo os gastos por mais um período sem a geração de receita naquele ciclo, ou pelo descarte, que pode gerar receita com a venda e liberar espaço para a entrada de uma potencial fêmea jovem no sistema.
Manejo reprodutivo interfere na identificação das fêmeas
Uma das situações apontadas pelo estudo para explicar a retenção é a dificuldade de gestão reprodutiva. Em propriedades sem uma estação de monta bem definida, por exemplo, a permanência do touro com as vacas durante todo o ano pode dificultar a identificação das fêmeas que falharam na reprodução.
Há também casos em que o animal é identificado ao fim do período reprodutivo, mas permanece no rebanho para receber uma nova oportunidade de prenhez. Segundo a análise, embora a decisão possa estar relacionada à tentativa de preservar o investimento realizado na matriz, a permanência prolongada mantém os custos sem uma receita correspondente naquele período.
O levantamento aponta ainda um desafio nos índices reprodutivos das propriedades avaliadas. Apenas 25% apresentaram taxa de desmame superior a 70%.
Para o Cepea, a identificação e o descarte adequado de fêmeas improdutivas devem ser considerados tanto uma estratégia de manejo quanto uma ferramenta de gestão econômica. Entre as medidas apontadas está a definição da estação de monta, permitindo concentrar o período reprodutivo, avaliar as matrizes em um momento específico e tornar as decisões de seleção e descarte mais assertivas.
Com informações do Cepea/Esalq-USP, Sistema CNA/Senar e Projeto Campo Futuro.















