Levantamento em Tepetlaoxtoc, no Estado do México, acompanhou três safras de confinamento bovino entre dezembro de 2023 e setembro de 2025
A seca prolongada e o encarecimento constante de insumos têm apertado o bolso de pecuaristas familiares em vários países, e um novo estudo de caso mexicano dá números concretos a essa realidade. Durante quase dois anos, pesquisadores acompanharam de perto uma pequena unidade de engorda bovina no município de Tepetlaoxtoc, no Estado do México, e o resultado surpreende: em dois dos três ciclos de produção analisados, o produtor perdeu dinheiro.
De acordo com uma investigação partilhada pela revista Qualis A Open Minds (propriedade do CPAH, o Centro de Pesquisa e Análises Heráclito, sob gestão técnica da Editora Atena), a análise foi conduzida por Laura Paloma González Maldonado, Jorge Eduardo Vieyra Durán, Jaír Vladimir Lovera Rivas, Rodolfo Moreno Alvarado, Elizabeth Zavala Martinez e Erika Patricia Gallaga Maldonado, pesquisadores ligados sobretudo à Universidade Autônoma Metropolitana, unidade Iztapalapa, na Cidade do México.
Onde foi parar o lucro do produtor?
No primeiro ciclo, com oito touros em confinamento por 163 dias, o custo total somou 10.796,14 dólares, contra uma receita de apenas 8.605,20 dólares. Resultado: prejuízo de 26,13% do capital investido. No segundo ciclo, com sete animais ao longo de 198 dias, a conta também fechou no vermelho, com perda de 21,91%. Só no terceiro ciclo, com seis touros e 210 dias de confinamento, o negócio ficou positivo, ainda que por pouco: um retorno de apenas 0,51% sobre o capital aplicado.
Segundo os autores, a explicação central para as perdas está numa combinação de três fatores: mortalidade elevada, superlotação dos currais e a curva de aprendizado do próprio produtor, sobretudo nos cuidados oferecidos aos animais logo depois da chegada à propriedade.
O que mudou entre o primeiro e o terceiro ciclo
Depois do primeiro prejuízo, o produtor reformulou toda a infraestrutura da propriedade. As mudanças, detalhadas pelo estudo, ajudam a explicar por que o resultado financeiro melhorou de forma constante a cada novo ciclo:
* Espaço por animal ampliado de 6,25 para 10 metros quadrados, valor mais próximo do recomendado internacionalmente para bovinos de mais de 400 quilos
* Comedouros e bebedouros realocados para a parte alta dos currais, o que evitou o acúmulo de água da chuva e de dejetos no piso
* Instalação de uma estrutura semelhante a uma estufa, com telhado plástico e proteção contra raios ultravioleta, para reduzir o estresse térmico do gado
* Produção própria de ração, o que derrubou o custo por quilo de 0,34 para 0,25 dólar entre o primeiro e o terceiro ciclo
* Classificação dos animais por porte e temperamento, prática que passou a separar bovinos mais agressivos do restante do lote
Mortalidade, a variável que mais pesou no bolso
A mortalidade caiu de 25% no primeiro ciclo para 28,6% no segundo e, finalmente, para 16,7% no terceiro, ainda um índice considerado alto para o setor. As causas variaram: dois animais morreram sem diagnóstico definido no início do estudo, outros sofreram lesões causadas por brigas dentro do próprio curral, e um touro chegou à propriedade já com um quadro de saúde comprometido, segundo a necropsia realizada pela equipe veterinária. Cada morte representa a perda total do capital investido naquele animal, o que ajuda a explicar o tamanho do impacto nas contas finais.
Sem mão de obra da família, o negócio não sobrevive
Um dos achados mais reveladores do estudo diz respeito ao trabalho não remunerado. Os pesquisadores calcularam que a mão de obra familiar representa um custo estimado de 2,53 dólares por dia, valor que, se fosse efetivamente pago, tornaria o sistema ainda mais deficitário. Mesmo diante de prejuízos recorrentes, a atividade continua de pé porque funciona como estratégia de renda complementar para a família, e não como negócio pensado para gerar lucro isolado.
O panorama identificado em Tepetlaoxtoc ecoa uma realidade compartilhada por pequenos criadores de gado em diferentes partes do mundo, incluindo o Brasil, onde propriedades familiares também convivem com secas prolongadas, custo crescente de ração e dificuldade de acesso a assistência técnica especializada. Para os autores do estudo, sem apoio de instituições públicas, universidades e profissionais do setor, esse tipo de produção corre o risco real de desaparecer, já que a adaptação às novas condições climáticas tem custo elevado e nem sempre está ao alcance do pequeno produtor.
Por MF Press Global.


















