Primeira entrevistada da série Propostas dos Candidatos a Governo 2026. Nesta entrevista a candidata fala sobre infraestrutura, industrialização, meio ambiente, crédito e outros desafios do setor produtivo
O Tocantins Rural inicia uma série de entrevistas com candidatos ao Governo do Estado para apresentar suas propostas para o agronegócio nas eleições de 2026. O portal procurou os cinco candidatos mais bem posicionados no cenário estimulado da pesquisa Real Time Big Data divulgada em agosto desse ano e encaminhou a todos as mesmas dez perguntas.
O levantamento, realizado pelo instituto Real Time Big Data com 1.600 entrevistados entre 21 e 25 de agosto e divulgado pela Gazeta do Povo, aponta Professora Dorinha (União Brasil) com 33% e Vicentinho Júnior (PSDB) com 30%, tecnicamente empatados. Na sequência estão Laurez Moreira (PSD), com 11%; Ataídes Oliveira (Novo), com 7%; e Professor Witer Naves (PSOL), com 4%. A ordem da série considera os percentuais registrados no levantamento.
Primeira entrevistada, Professora Dorinha apresenta suas propostas para dez temas relacionados ao setor produtivo do Tocantins. As respostas foram editadas para reduzir a extensão, preservando as posições, propostas e dados apresentados pela candidata.
Quais são as prioridades para infraestrutura e escoamento da produção?
Professora Dorinha: “Infraestrutura e logística devem ser tratadas como uma política de Estado, com parcerias com o Governo Federal e o setor produtivo e foco nas deficiências estruturais imediatas e na integração modal.
Entre as prioridades estão substituir pontes de madeira, principalmente nos corredores do Matopiba e Vale do Araguaia, permitindo o tráfego de veículos bitrem, e manter e recuperar eixos estratégicos de escoamento, como trechos da TO-080, TO-164 e TO-050. Também precisamos avançar na pavimentação de rodovias que ligam centros produtores à Ferrovia Norte-Sul, nos pontos de transbordo de Porto Nacional, Palmeirópolis, Gurupi e Aguiarnópolis.
Outro ponto é avançar na hidrovia Araguaia-Tocantins, com a questão do Pedral do Lourenço, e avaliar a federalização de rodovias estaduais de alto tráfego que funcionam como eixos nacionais.
Nos primeiros 100 dias, pretendemos diagnosticar rodovias, pontes e acessos rurais estratégicos e estabelecer prioridades por volume produzido e importância econômica. A partir do segundo ano, avançar na pavimentação e recuperação dos corredores estruturantes, para chegar ao quarto ano com uma malha integrando rodovias, ferrovias e hidrovias.
Também podemos avaliar, junto ao setor produtivo, experiências de financiamento da infraestrutura como Fundersul, em Mato Grosso do Sul; Fethab, em Mato Grosso; e Fundeinfra, em Goiás, com participação dos produtores na definição da aplicação dos recursos.”
Como ampliar a industrialização da produção agropecuária?
Professora Dorinha: “Não basta sermos grandes produtores de commodities. Podemos agregar valor com a agroindustrialização e gerar emprego e renda aqui mesmo. A indústria de alimentos representa pouco mais de 17% entre os principais segmentos industriais do Estado e derivados de petróleo e biocombustíveis, algo próximo a 2,5%, mas esse crescimento não acompanhou o mesmo desempenho da produção no campo.
Com a reforma tributária e a transição até 2033, precisamos utilizar novos instrumentos para atração de investimentos, como o Fundo de Desenvolvimento Regional, além de contrapartidas não tributárias.
Vamos estruturar distritos industriais próximos aos pátios multimodais da Ferrovia Norte-Sul e outras regiões integradoras, com energia, água, saneamento e acessos pavimentados, para receber usinas de etanol de milho, esmagadoras, frigoríficos e outras indústrias.
Também precisamos fortalecer o serviço de inspeção estadual e sua integração ao SISBI-POA e estimular indústrias de ração integradas à avicultura, suinocultura e piscicultura, aproveitando subprodutos da soja e do milho.
Nos primeiros 100 dias, pretendemos fortalecer a política estadual de atração de investimentos. Também vamos trabalhar com Sudam e Banco da Amazônia para linhas do FNO e FDA destinadas a agroindústrias, frigoríficos e indústrias de etanol, rações e fertilizantes, além de qualificar mão de obra em parceria com universidades, institutos federais e Sistema S.”
Como agilizar CAR e licenciamento ambiental?
Professora Dorinha: “Já existem iniciativas como a Resolução Coema nº 140/2025, que estabelece procedimentos para inscrição e análise do CAR e para o Programa de Regularização Ambiental, mas precisamos modernizar a gestão do Naturatins por meio de automação, padronização de critérios e tecnologias geoespaciais.
O órgão precisa digitalizar e integrar processos, estabelecer prazos, criar triagem automática para casos simples e qualificar as equipes para processos mais complexos. O produtor e o empreendedor não podem ficar indefinidamente sem resposta do Estado.
Também precisamos regulamentar a Licença Ambiental por Adesão e Compromisso para atividades rurais de baixo e médio impacto, padronizar estudos como EIA/RIMA, RCA e PCA e construir uma plataforma integrada em que a validação do CAR facilite o acesso aos pedidos de outorga de água e licenciamento.
Vamos ampliar ainda o uso de imagens de satélite e sensoriamento remoto, direcionando a fiscalização para áreas com alertas efetivos de desmatamento ilegal ou não conformidade.”
Qual sua posição sobre REDD+, carbono e serviços ambientais?
Professora Dorinha: “Mecanismos como REDD+, mercado de carbono e Pagamento por Serviços Ambientais podem alinhar preservação ambiental com rentabilidade econômica.
O mercado de carbono deve ser estruturado de forma justa e transparente, tratando o produtor rural como prestador de serviços ambientais. A prioridade deve garantir o protagonismo e o benefício aos produtores, remunerando pela conservação além da cota legal, com mecanismos transparentes de repartição dos recursos e participação das entidades do setor, agricultura familiar e comunidades na definição das regras.
Também precisamos integrar o Pagamento por Serviços Ambientais a práticas como ILPF, recuperação de pastagens degradadas, plantio direto e conservação de bacias hidrográficas. O produtor que sequestra carbono ou reduz emissões com tecnologia deve receber incentivos e créditos suplementares.
O carbono estocado na propriedade privada deve ser do produtor rural, evitando dupla contagem ou estatização indevida dos créditos privados.”
Pretende rever taxas e custos que afetam o agro?
Professora Dorinha: “O Tocantins precisa ser competitivo para atrair investimentos. Com a transição da reforma tributária, que prevê a CBS no âmbito federal, o IBS nos estados e municípios e o Imposto Seletivo, os impactos sobre o setor produtivo precisarão ser acompanhados.
Nos primeiros 100 dias, será fundamental fazer um diagnóstico da estrutura tributária, com revisão técnica das taxas e outras despesas que impactam diretamente a produção, sem perder de vista a responsabilidade fiscal.
Vamos priorizar a redução de custos onde houver distorções e criar incentivos para quem investir, industrializar e gerar empregos. Podemos trabalhar na simplificação das taxas de licenciamento ambiental e na redução das custas cartorárias e de registro para averbação de Cédulas de Produto Rural, registros de garantias e contratos de compra e venda.”
Como ampliar o acesso ao crédito rural?
Professora Dorinha: “Precisamos trabalhar junto ao Banco da Amazônia e à Sudam para que a cota do FNO destinada ao Tocantins contemple prioritariamente taxas mais reduzidas e prazos dilatados para pequenos e médios produtores.
Também queremos ampliar a aplicação de recursos do Plano Safra por meio do cooperativismo de crédito e avaliar um programa estadual de equalização de taxas de juros.
Precisamos diversificar as fontes de financiamento, estimulando instrumentos como CPR Financeira, CPR Verde e Fiagros. O Tocantins também poderá participar de fundo garantidor para reduzir os problemas de acesso ao crédito por falta de garantias, inclusive articulando instrumentos como FGO e Fampe.
A regularização fundiária é fundamental para que as propriedades possam constituir garantias. Outra possibilidade é criar um fundo voltado ao seguro rural, complementando a subvenção federal e ampliando o acesso desde o agricultor familiar até o grande produtor.”
Quais são as propostas para a agricultura familiar?
Professora Dorinha: “São aproximadamente 42 mil agricultores familiares, parte deles distribuídos em 540 assentamentos da Reforma Agrária e do Crédito Fundiário. A agricultura familiar é um dos pilares da segurança alimentar, da diversificação da produção e da permanência das famílias no campo, e precisamos olhar também para a sucessão rural e a permanência dos jovens.
Precisamos fortalecer assistência técnica e extensão rural, capacitação, inovação e mecanização, tendo o Ruraltins como instrumento de disseminação de tecnologia e atuando em parceria com outras instituições.
O Estado também pode estimular agricultura irrigada, fruticultura e piscicultura, inclusive com energia solar, além da mecanização agrícola comunitária por meio de associações e cooperativas.
Na comercialização, podemos ampliar as compras pelo PAA. No PNAE, a Lei nº 15.226/2025 elevou para 45% o percentual mínimo de compras da agricultura familiar a partir de 2026. É papel do Estado garantir que 100% das escolas estaduais cumpram ou ultrapassem essa meta.
Nos mercados privados, podemos estimular instrumentos como Senaf, Selo Arte, Selo Queijo Artesanal e Indicações Geográficas para agregar valor e aproximar a produção familiar dos consumidores.”
Como enfrentar os gargalos de armazenagem e irrigação?
Professora Dorinha: “Na irrigação, o Tocantins possui uma área estimada entre 120 mil e 150 mil hectares irrigados, enquanto mapeamentos técnicos apontam mais de 4,8 milhões de hectares aptos à irrigação.
Na armazenagem, a safra 2025/2026 chega a quase 10 milhões de toneladas de grãos, mas a capacidade estática não chega a 25%, ou 2,5 milhões de toneladas. Isso significa que pelo menos 75% da safra precisa ser comercializada no momento da colheita, com impactos sobre preço, frete, qualidade e perdas no transporte.
Precisamos ampliar o acesso ao financiamento para armazenagem. O Programa de Armazenagem Rural permite operações com prazos que chegam a 15 anos e cinco anos de carência. Também podemos utilizar instrumentos como PCA, FNO e FDA.
A expansão da armazenagem dentro da porteira depende de crédito de longo prazo, juros compatíveis, agilidade nas licenças, regularização fundiária, novas garantias e incentivos para cooperativas e setor privado investirem.”
Como ampliar tecnologia e conectividade no campo?
Professora Dorinha: “O desafio é fazer com que a tecnologia chegue a todos os produtores. Não existe transformação digital sem investimento em conectividade, pesquisa, assistência técnica e qualificação profissional.
Precisamos ampliar o sinal 4G e 5G rural, com parcerias e recursos do Fundo de Universalização dos Serviços de Telecomunicações, levando conectividade às regiões produtoras, assentamentos e comunidades tradicionais.
Também queremos criar polos de inovação e incubadoras de agtechs integradas à UFT, Unitins, IFTO e centros de pesquisa e reduzir os custos de aquisição de tecnologias como drones de pulverização, estações meteorológicas inteligentes, sensores de solo e sistemas de telemetria.
Precisamos fortalecer a atuação da Embrapa e da Unitins em pesquisas sobre cultivares adaptadas ao clima local, manejo do solo do Cerrado, biológicos e diversificação da produção, associando isso a um modelo híbrido de assistência técnica, presencial e digital.
Também é necessário investir na formação e qualificação da mão de obra, com participação dos institutos federais, Senar e Sebrae.”
Qual será a principal meta para o agro ao final de quatro anos?
Professora Dorinha: “Nossa meta principal será caminhar para a agroindustrialização e transformar o Tocantins em um polo agroindustrial conectado, sustentável e de alto valor agregado, garantindo que a riqueza produzida dentro da propriedade rural gere renda e desenvolvimento no Estado.
O produtor poderá avaliar os resultados pela melhoria da infraestrutura de transporte, ampliação dos modais e da capacidade de armazenagem, expansão da internet rural e da cobertura 4G e 5G e maior agilidade na análise do CAR, licenciamento e outorgas de água.
Também precisamos avançar na regularização fundiária e na remuneração pelos serviços ambientais, por meio do REDD+ Jurisdicional e programas de PSA.
Vamos trabalhar para a instalação de plantas agroindustriais, expandindo o esmagamento de soja, usinas de etanol de milho, fábricas de ração e novos frigoríficos, inclusive de pescados, próximos aos eixos multimodais.
Também queremos ampliar investimentos de empresas, cooperativas e grupos agroindustriais e buscar o crescimento das cadeias de avicultura, suinocultura e piscicultura de água doce integradas à produção local de grãos.”
Quem é Professora Dorinha
Maria Auxiliadora Seabra Rezende, conhecida como Professora Dorinha, é senadora pelo Tocantins e candidata ao Governo do Estado pelo União Brasil. Antes de chegar ao Senado, exerceu três mandatos como deputada federal, após ser eleita pela primeira vez em 2010.
Ligada à área da educação, comandou a Secretaria da Educação e Cultura do Tocantins por mais de nove anos e presidiu o Conselho Nacional de Secretários de Educação (Consed). Na Câmara, presidiu a Comissão de Educação e a Frente Parlamentar Mista da Educação e foi relatora da proposta que resultou na Emenda Constitucional nº 108/2020, que tornou permanente o Fundeb.
Em 2022, foi eleita senadora pelo Tocantins com mais de 395 mil votos. Em 2026, disputa o Governo do Estado.















