Estudo mostra que manter fêmeas improdutivas no rebanho eleva custos e compromete o resultado econômico; propriedades com menor retenção registraram margem líquida de R$ 959 por hectare
Manter no rebanho uma vaca que não ficou prenha pode representar um custo médio de R$ 385 por animal ao ano para o pecuarista. O gasto ocorre mesmo sem que a fêmea produza um bezerro naquele ciclo e pode se transformar em um dos chamados “gastos invisíveis” da pecuária de corte.
Os dados fazem parte do informativo de custos de bovinos de setembro de 2026, elaborado pelo Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea/Esalq-USP) em parceria com a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), dentro do Projeto Campo Futuro.
A análise mostra que, mesmo sem gerar receita naquele ciclo produtivo, a vaca vazia continua ocupando área e demandando alimentação, mão de obra e manejo. Somente a alimentação representa, em média, 55% do custo anual de manutenção dessa categoria, o equivalente a cerca de R$ 17,50 por cabeça ao mês.
O problema ganha dimensão quando essas fêmeas permanecem na propriedade por mais um ciclo. Entre 53 propriedades típicas de cria analisadas, 32% mantiveram aproximadamente metade das vacas vazias no sistema, enquanto 42% retiveram mais de 60% para o ano seguinte.
Retenção de vacas vazias pesa no custo da fazenda
Os números levantados pelo Projeto Campo Futuro indicam uma relação entre a retenção de fêmeas improdutivas e os custos da atividade.
Nas propriedades que retiveram até 10% das vacas vazias, o Custo Operacional Total (COT) ficou em R$ 307 por hectare e R$ 3,82 por quilo de bezerro desmamado. Na faixa de retenção entre 40% e 60%, esses valores chegaram a R$ 847 por hectare e R$ 10,37 por quilo, conforme o levantamento apresentado pelo Cepea.
Mesmo na faixa superior a 60% de retenção, em que o COT observado foi de R$ 774 por hectare e R$ 8,96 por quilo de bezerro desmamado, os valores permaneceram acima dos registrados nas propriedades com menor retenção.
O reflexo também aparece na margem líquida. Conforme a tabela apresentada no estudo, propriedades que mantiveram até 10% das vacas vazias alcançaram margem líquida média de R$ 959,19 por hectare e taxa de desmame de 76%.
Quando a retenção ficou acima de 60%, a margem líquida observada caiu para R$ 528,27 por hectare, enquanto a taxa de desmame ficou em 62%. O levantamento também mostra que apenas 25% das propriedades analisadas apresentaram taxa de desmame superior a 70%.
Falhas no manejo reprodutivo ajudam a explicar o problema
Segundo a análise, uma das situações associadas à permanência de vacas vazias é a ausência de uma estação de monta bem definida. Quando os touros permanecem com as vacas durante todo o ano, pode ficar mais difícil identificar as fêmeas que falharam na reprodução e definir o momento adequado para avaliar o desempenho reprodutivo.
Outro comportamento apontado no estudo ocorre quando o produtor identifica a fêmea vazia, mas decide mantê-la no rebanho para oferecer uma nova oportunidade de prenhez. Apesar de buscar preservar o investimento já realizado na matriz, a decisão prolonga os custos de um animal que, naquele período, não está gerando receita.
O Cepea ressalta que atingir 100% de prenhez é difícil em um sistema de cria e, portanto, a presença de algum percentual de fêmeas vazias é esperada. O ponto central está na decisão sobre o destino desses animais depois que a falha reprodutiva é identificada. O produtor pode manter a matriz e assumir seus custos por mais um ciclo ou realizar o descarte, obtendo receita com a venda e liberando espaço para a entrada de uma fêmea jovem no rebanho.
Estação de monta pode ajudar no controle
Entre as estratégias apontadas pelo levantamento está a adoção de uma estação de monta bem definida. A concentração do período reprodutivo permite estabelecer um momento específico para avaliar as matrizes e identificar quais ficaram prenhas e quais permaneceram vazias.
Com essa informação, o processo de seleção e descarte pode ser realizado de forma mais assertiva, reduzindo a permanência de animais que não contribuem para a geração de receita e permitindo direcionar pastagem, suplementação, mão de obra e outros recursos às categorias produtivas.
Para o Cepea, a identificação e o descarte adequado de vacas improdutivas devem ser tratados não apenas como decisões de manejo, mas também como ferramentas de gestão econômica da propriedade.















