Possíveis impactos do fenômeno sobre chuvas e temperaturas podem influenciar avaliação de risco das seguradoras; área atendida com recursos do PSR caiu 76,8% em 2026
A perspectiva de atuação do El Niño entre o fim de 2026 e o início de 2027 aumenta a preocupação com os custos e a disponibilidade do seguro rural no Brasil. O fenômeno pode elevar os riscos para diferentes culturas justamente em um momento de crédito mais seletivo, margens pressionadas e redução da área segurada com recursos do Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR).
Os efeitos, no entanto, não devem ocorrer da mesma forma em todo o país. Enquanto o Sul pode enfrentar chuvas acima da média, as regiões Centro-Oeste, Norte e Nordeste estão sujeitas à redução das precipitações e ao aumento das temperaturas, cenário que merece atenção também dos produtores do Tocantins.
Segundo Pedro Loyola, coordenador do Observatório do Crédito e Seguro Rural do Centro de Estudos do Agronegócio da Fundação Getulio Vargas (FGV Agro), o El Niño não significa necessariamente uma quebra generalizada da safra, mas as alterações no regime de chuvas e nas temperaturas aumentam os riscos para a produção.
No Centro-Oeste, Norte e Nordeste, as condições podem resultar em necessidade de replantio, falhas no desenvolvimento das culturas e maior risco de incêndios. Soja, milho, algodão e pastagens estão entre as atividades que podem ser afetadas.
“O El Niño não chega sozinho. Ele encontra o produtor com crédito mais seletivo, margens pressionadas, endividamento elevado e cobertura securitária muito reduzida. O principal risco da safra não é apenas climático. É a combinação de maior volatilidade com menor capacidade financeira e institucional para absorver as perdas”, afirma Loyola.
Seguro pode ficar mais caro, mas impacto deve variar
A possibilidade de aumento do preço das apólices não é consenso entre especialistas do setor. Loyola avalia que seguradoras e resseguradoras tendem a considerar uma série de fatores na precificação, entre eles município, cultura, época de plantio, tipo de solo, histórico de produtividade, manejo e concentração da exposição ao risco.
Isso significa que não há um impacto uniforme do El Niño sobre os seguros. Dependendo da região e da atividade, as alterações podem ocorrer na taxa cobrada, franquia, limite de cobertura, produtividade garantida ou até mesmo na disponibilidade do seguro.
Guilherme Rios, coordenador de produção agrícola da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), também avalia que a conjuntura de riscos associados ao fenômeno deverá ser considerada pelas seguradoras. Para ele, um eventual aumento dos custos tende a aparecer com maior intensidade em 2027, diante da expectativa de que o El Niño alcance seu ápice entre o fim deste ano e o início do próximo.
“Com certeza, vamos ter aumento de custo do seguro. A sinistralidade pesa muito na formação do preço das apólices”, afirma Rios.
Já Daniel Nascimento, presidente da Comissão Rural da Federação Nacional de Seguros Gerais (FenSeg), apresenta uma avaliação diferente e não espera aumento generalizado dos preços. Segundo ele, grande parte das contratações está concentrada na Região Sul, onde historicamente os maiores prejuízos para as seguradoras ocorreram em períodos de La Niña.
Nascimento aponta que, considerando os últimos 20 anos, aproximadamente 50% das indenizações de seguro rural foram pagas em períodos de La Niña, enquanto anos neutros e de El Niño responderam, cada um, por cerca de 25%.
Área coberta pelo PSR cai 76,8%
A discussão ocorre em um momento de forte redução da área atendida pelo Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural, mecanismo pelo qual o governo federal assume parte do valor do prêmio pago pelo produtor na contratação da apólice.
De acordo com dados do governo federal citados pela CNA, a área coberta com recursos do PSR está em 741 mil hectares em 2026, redução de 76,8% em relação a 2025. O volume também está distante dos 13,67 milhões de hectares registrados em 2021.
Caso o cenário seja mantido até o encerramento do ano, a cobertura de 2026 poderá ser a menor desde 2016, segundo avaliação de Guilherme Rios.
A preocupação aumenta com a proximidade da nova safra de grãos, cujo plantio começa a partir de setembro em diferentes regiões. Como o seguro precisa ser contratado antes do plantio, representantes do setor defendem a liberação dos recursos do PSR que estão contingenciados.
Histórico mostra impacto de eventos climáticos
Dados da Confederação Nacional das Seguradoras (CNseg) mostram que os maiores volumes recentes de indenizações do seguro rural ocorreram durante a atuação do La Niña.
Em 2021, os pagamentos cresceram 95,1% e alcançaram R$ 7,2 bilhões. No ano seguinte, chegaram a R$ 10,5 bilhões, maior valor citado no levantamento.
Apesar desse histórico, especialistas avaliam que o El Niño exige acompanhamento por causa das diferentes consequências que pode produzir regionalmente e da atual situação financeira de parte dos produtores.
No Tocantins e em outras áreas das regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste, o ponto de atenção está principalmente na possibilidade de redução das chuvas e aumento do calor. A intensidade e a localização desses efeitos, entretanto, dependerão da evolução do fenômeno climático.
Nesse cenário, a combinação entre risco climático, capacidade financeira do produtor e disponibilidade de seguro deverá ocupar espaço no planejamento da safra, especialmente diante da redução da cobertura subsidiada e da possibilidade de condições mais restritivas para determinadas regiões e culturas.
Com informações do Globo Rural.















